quarta-feira, 15 de julho de 2020

O Melhor 84 do Brasil


Hoje, 15 de julho é aniversário do ex-piloto Pedro Victor De Lamare.
Nesse dia, fica aqui minha homenagem para ele: a recuperação do texto que escrevi e publiquei no site da Confederação Paulista. Infelizmente lá, foi apagado. Aí vai a crônica:

Advogado, fã da música clássica, do autor literário Hemingway, professor e empresário. Além disso, exerceu o papel de jornalista traduzindo para o português o livro “A História de Jim Clark” de Bill Gavin. Ainda nessa linha, trabalhava nas revistas Quatro Rodas, Auto Esporte e também escrevia suas peripécias européias para a extinta Grand Prix.

Esse é o perfil de Pedro Victor De Lamare, piloto paulista que no início dos anos 70, conquistou o tricampeonato brasileiro na categoria Turismo e o vice-campeonato brasileiro de F-Ford.

O INÍCIO: De Lamare realizou sua primeira corrida em 1957, na segunda prova do evento Cinqüentenário do Automóvel Clube do Brasil, em Interlagos. Tinha 20 anos de idade e chegou em 15ºlugar na geral (foi quarto na categoria-esporte até 2000 cc) pilotando um MG TC nº84. Seu parceiro, Paschoal Nastromagario finalizou na sua frente com um MG TD.

Sua segunda prova foi os 500 Km de Interlagos de 1958 em dupla com o amigo Marivaldo Fernandes. Abandonaram a prova por quebra mecânica do mesmo MG TC nº84, carro que pertenceu a Cláudio Daniel Rodrigues e era mantido por Giovani Mosquetti.

A FORMAÇÃO: A falta de verba, a imposição dos pais e a ambição de finalizar sua Faculdade de Direito em Santos, o afastou das pistas por seis anos (1959-1964).

Em 1964 De Lamare se casou com a manequim Gigi. Com grande incentivo da esposa, passou a se dedicar totalmente ao automobilismo como piloto, coisa rara no Brasil daquela época.


O APRENDIZADO: Com o orçamento apertado, De Lamare raramente tinha chance de pilotar carros vencedores. Já mostrando seu alto profissionalismo, De Lamare tinha seu próprio Renault 1093 (preparado na Torke de Luiz Pereira Bueno) para as corridas curtas e uma berlineta Interlagos (motor preparado por Roger Resny) para as provas menos importantes.

Com o Renault 1093 Pedro virou a volta de Interlagos em 4’30”, um ótimo tempo para o padrão de seu carro. Isso chamou a atenção do chefe da Willys, o grande Luiz Antônio Greco. Este não pensou duas vezes e o convidou a participar oficialmente da escuderia Willys.


Nesse ano de 1965, De Lamare chegou em quinto lugar nas 12 Horas de Interlagos e sexto nos 1000 Km de Interlagos, ambas as provas com o piloto Luiz Fernando Terra Smith e conduzindo o Renault 1093. Com Ludovico Perez e pilotando o Willys Interlagos, De Lamare ficou em quinto lugar nas 6 Horas de Curitiba.

Novamente com Ludovico Perez e pilotando o Interlagos, De Lamare subiu ao pódio ao terminar na terceira posição nos 1000 Km de Brasília de 1966. Já com Waldemar Costa, alcançou o sétimo posto com o Renault 1093 nas 24 Horas de Interlagos.

Em 1967 houve o primeiro Campeonato Brasileiro de Fórmula Vê. Com um Fitti-Vê particular
preparado na concessionária Mecanova dos irmãos Otto e Fritz Jordan, De Lamare conquistou um terceiro lugar no Rio de Janeiro.

A já tradicional prova 500 Km de Interlagos foi disputada em 1967 com esses fórmulas. Participando em dupla com Ricardo Achcar e pilotando o Aranae nº100, De Lamare não terminou a prova. Nas 12 Horas de Interlagos pilotou a carretera Gordini, chegando na sexta posição.

A PRIMEIRA VITÓRIA: Em 1968, a escuderia Cebem tinha nada menos que o experiente Chico Landi como diretor técnico. Lá, De Lamare aprendeu com “Seu Chico”, “os segredos” de como ganhar tempo com carros de maior potência. Daí, De  Lamare conquistou sua primeira vitória: foi nas 500 Milhas da Guanabara de 1968 em dupla com Jan Balder, a bordo do BMW Alpina 2000 cc nº3 da escuderia Cebem.

Além de José Carlos Pace e Marivaldo Fernandes, a equipe Jolly-Gancia contou com De Lamare em 1969. Correndo sempre com o Alfa Romeo GTA, De Lamare e Mario Olivetti terminaram na segunda colocação nos 1000 Km de Brasília. Já nos 1000 Km da Guanabara, De Lamare abandonou conduzindo o AC-Volkswagen 1800 cc da equipe de Olavo Pires.

Com seu lado profissional em ascensão Pedro Victor De Lamare percebeu a falta de apoio das montadoras em 1970. Daí conquistou patrocinadores e criou uma equipe própria muito bem estruturada, a De Lamare Competições.
Como empresário fundou a Escola de Competições Bardhal, localizada em frente ao autódromo de Interlagos. Sua esposa Gigi cuidava de toda parte administrativa e De Lamare atuava como instrutor. Foi um sucesso total, pois, no primeiro ano, Pedro formou mais de quatrocentos pilotos e em setembro, abriu outra em Porto Alegre. Pilotos de renome como José Renato Catapani, Sérgio Mattos, Carlos Quartim Barbosa, Ricardo Di Loreto, os irmãos Abílio e Alcides Diniz, José Pedro Chateaubriand e Arthur Bragantini freqüentaram a escola Bardhal.

A oficina da escuderia De Lamare Competições ficava no mesmo local da escola e juntamente com seu mecânico Manelão, De Lamare preparou um Opala para correr na categoria Turismo. O seu motor 3900 cc foi preparado por Caito Telles de Mattos, primo do Mário César de Camargo Filho, o Marinho.

O dia 08 de novembro de 1970 marcou a inauguração do autódromo de Tarumã. Diante de um público de mais de 120.000 pessoas, Pedro Victor De Lamare venceu de ponta-a-ponta a prova de Turismo na sua categoria, depois de cravar a pole e melhor volta com seu lindo Opala nº84 azul. Ainda com o Opala, na prova 2 Horas de Interlagos chegou em quarto lugar e quinto nos 500 Km de Interlagos.

Aproveitando a sua experiência na pilotagem de monopostos, Pedro correu em Interlagos, na última etapa do Torneio Internacional BUA de Fórmula Ford finalizando em 13ºlugar com um Hawke-DL2A.
Com um Ford Corcel 1500 finalizou as 24 Horas de Interlagos em quinto lugar.

A RECOMPENSA: Pelo seu desempenho na categoria Turismo de 1970, Pedro Victor de Lamare foi escolhido, por um júri de jornalistas especializados em automobilismo, para receber o Prêmio Victor, que era uma premiação semelhante ao Capacete de Ouro de hoje. O convidado especial Colin Chapman foi quem lhe entregou o prêmio.

O SUCESSO: Em 1971, Pedro recebeu sua única ajuda da General Motors: um Opala cupê duas portas e zero quilômetro. Com esse carro azul nº84 e motor 4100cc, Pedro venceu as 12, as 4 Horas e os 500 Km de Tarumã e assim, conquistou facilmente o primeiro Campeonato Brasileiro de Turismo - Divisão 3 (carros turismo de fabricação nacional e modificados para corrida. A categoria era dividida em três classes: Classe A: até 1600 cc; Classe B: de 1601 a 3000 cc e a Classe C de 3001 a 6000 cc), classe C, adiante de Pedro Carneiro Pereira.

No Campeonato Brasileiro de F-Ford, Pedro pilotou um Bino azul e nº84 ficando com o vice-campeonato, atrás do campeão Francisco Lameirão.
O Torneio SUDAM (provas disputadas entre brasileiros e argentinos) foi em maio/julho de 1971. Lá estava Pedro Victor De Lamare novamente com seu carro azul e, logicamente, nº84. Desta vez ele não era o Opala, mas o protótipo Fúria-Chevrolet 2500 cc 4 cilindros, projeto do brasileiro Toni Bianco.

O carro tinha um design agressivo e com ele, Pedro chegou em terceiro lugar na prova de Tarumã e abandonou em Buenos Aires depois de chegar em 10ªlugar na primeira bateria.

Visando participar novamente do SUDAM em 1972, Pedro comprou, do projetista Horatio Steven, o protótipo argentino Tuero Sprint. O carro foi preparado “meia-boca” porque Horatio estava em dificuldades financeiras e queria receber o dinheiro logo. Em dezembro de 1971, Pedro aproveitou o Torneio-Sul Americano em Interlagos para correr com ele. Acoplado com o motor Chevrolet o Tuero era inguiável, principalmente nas retas. Mesmo assim, Pedro conquistou um quinto e um sétimo lugar.

Com imensa satisfação vendeu o Trueno e, em seu lugar comprou o protótipo brasileiro Avallone, projeto do brasileiro Antônio Carlos Avallone, baseado no Lola do campeonato CAN-AM.

Melhorando ainda mais seu Opala azul nº84 4100 cc, De Lamare conquista o bicampeonato brasileiro de Turismo com vitórias em Tarumã e Interlagos. Esse título foi mais difícil que o de 1971, pois Luiz Pereira Bueno da escuderia Hollywood proporcionou brigas memoráveis com De Lamare.

No dia 18 de junho de 1972, De Lamare levou seu Avallone nº84, ao 9ºlugar na primeira prova da SUDAM, em Buenos Aires. Participou com esse carro na Divisão 4 (carros esporte com chassi e motor nacionais: Classe A até 2000 cc e Classe B acima de 2000cc). Com esse carro, Pedro teve apoio do engenheiro Joseph da GM argentina obtendo duas vitórias em quinze corridas até o ano de 1973.

Graças ao organizador Antônio Carlos Scavonne, De Lamare participou do Torneio de F2 no Brasil com um March 722-Ford, conseguindo um oitavo lugar como melhor resultado.

O ano de 1973 foi o apogeu do profissionalismo de Pedro Victor De Lamare. Ele conquistou o tricampeonato brasileiro de Turismo na Divisão 3 contra Antônio Castro Prado e Júlio André Tedesco que teve seu Opala preparado na Argentina, assim como Celso Antônio Frare e Afonso Iglesias.

Seu Opala continuou com o nº84 mas, passou a ser amarelo devido ao novo patrocinador Eletroradiobraz que fundou o Eletroradiobraz Team.

Em agosto de 1973, Pedro contratou Ricardo Divila para preparar seu Opala e Wilson Fittipaldi para elaborar seu plano de corridas. Ricardo e Wilson estavam projetando o Copersucar F1 e De Lamare reformando sua escola para abrigar o protótipo do F1.

A “mão” de Divila deixou o Opala 40 quilos mais leve, reforçou o eixo traseiro para rodas de 13” de largura, colocou pneus slicks, adotou freio a disco nas quatro rodas, mudou o câmbio para o ZF alemão de cinco velocidades, colocou o radiador em posição inclinada criando nova saída de ar do motor, acoplou um aerofólio traseiro semelhante ao BMW 3000 CSL e deixou o dianteiro mais baixo tomando toda a largura do carro.
O motor foi recuado quase 20 cm, praticamente ficando entre eixos, e passou para 4300 cc, graças ao engenheiro Roberto Beccardi da GM que engrossou o bloco de parede para receber pistões maiores.

Todo esse investimento financeiro e tecnológico tornou o Opala de De Lamare imbatível. Tanto é que ele baixou –e muito- o recorde de Turismo em Interlagos de 3’20”2 para 315”5. Este é histórico e definitivo, pois depois a pista foi modificada...
O carro chegou quase ao nível da perfeição, pois De Lamare conseguia fazer a Curva 1 de Interlagos em 5ªmarca com o pé embaixo e aliviando muitíssimo pouco.

De 1970 até 1973 o Opala nº84 venceu quinze provas e arrematou três títulos de Turismo na Divisão 3.

A EUROPA: Tudo mudou em 1974 quando De Lamare desembarcou em Londres para disputar o Campeonato Europeu de viaturas Esporte (Turismo) até 2 litros, vulgo Grupo 5 GT e o Interserie.

Com patrocínio da SPI (Sociedade Paulista de Investimento) por dois anos na Europa, Pedro Victor De Lamare abriu a sede da SPI Racing Team em Mourne End, a sessenta quilômetros de Londres. O chefe de equipe era Antônio de Souza e os mecânicos Luís Henrique de Almeida e Neal Croft da Surtees F2.
Pedro Victor De Lamare adquiriu um March 74 S e dois motores BMW de 280 HP com assistência da March e um caminhão que era do piloto Graham Hill. No seu primeiro treino, De Lamare teve a infelicidade de presenciar o acidente fatal do piloto Phillip Landow que testava um March 73 da Fórmula Atlantic.

Pedro De Lamare assinou um contrato de três meses com a Firestone que iria disponibilizar o engenheiro John Ward para auxiliar na escolha dos tipos de pneus da SPI. O March (entregue com pneus Goodyear) teve inúmeros problemas de adaptação aos pneus Firestone, mas mesmo assim De Lamare conquistou dois quartos lugares, em Nogaro e em Magny Cours.
Outro problema foi a caríssima manutenção dos motores BMW. Depois de seis corridas Pedro trocou pelos motores Ford, mais baratos, com menor potência e preparados por Alan Smith.

No total foram treze corridas com duas vitórias (Thurxton, apesar de um defeito na fricção e Oulton Park sob chuva), um segundo, dois quartos, um oitavo, um décimo, um décimo - primeiro e cinco abandonos, além de uma pole e uma melhor volta, em Brands Hatch.
Assim, Pedro De Lamare terminou o ano como vice-campeão do Grupo 5 GT.

A SPI diminuiu o press-release para o Brasil e o carro da March não ficou pronto para 1975. Aí, pediu emprestado um Lola T-294 de Roger Hire, para uma prova do Mundial de Marcas, em Mugello, fazendo dupla com o saudoso Antônio Castro Prado e chefiado pelo ex-piloto Roger Hevens. Abandonaram com quebra do motor e em Dijon eles correram com o Lola T-292 que José Maria Juncadella correra em 1974. Foram desclassificados por serem empurrados no grid. Depois disso, Pedro Victor De Lamare nunca mais correu...

POR TRÁS DAS PISTAS: Ele foi morar no interior de São Paulo e trabalhar com cavalos de raça. Mudou-se para o Rio Grande do Sul e em 1996 para o Uruguai onde administrou uma estância para brasileiros. Em 2001 voltou para São Paulo e hoje, os filhos Stella, Maria e Pedro já estão formados...

Depois de pilotar Renault, Interlagos, Simca Chambod, DKW, Alfa Romeo, BMW; protótipos AC, Trueno Spirit, Fúria, Avallone; fórmulas Vê, Ford, e 2, March, Lola e seus bonitos Opalas, Pedro Victor De Lamare foi merecidamente homenageado em 2006, ao receber do presidente da CBA Paulo Scaglione, o Prêmio Benemérito.

Nada mais justo para o homem que sempre teve uma visão de futuro no automobilismo proporcionando à GM uma ampla abertura para que a Stock Car fosse criada com seus Opalas nos primeiros anos dessa categoria, que hoje é a maior do Brasil.

Seria muito gratificante (para o Brasil e todos que pasmaram com as proezas daquele Opala azul nº84), que os organizadores da Stock Car prestassem uma homenagem para o Sr. Pedro Victor De Lamare.

Por que não? Vamos esperar...

Abraço,

terça-feira, 14 de julho de 2020

Mapa (volta-volta) F1_2020 Etapa 02 - GP Styria

Abaixo o mapa da corrida 02 de F1 (2020), disputada no circuito de Red Bull Ring, (Styria).
O pontilhado uniforme indica abandono e o disforme indica penalização na classificação final.

Houve 159 ultrapassagens nas 71 voltas disputadas. 
O "cara" da corrida foi Sergio Pérez que efetuou 16 ultrapassagens, além de cravar a melhor volta da prova 4 vezes...

2020 F1_ Mapa (volta-a-volta) da Etapa 01_Áustria


Abaixo o mapa da corrida 01 de F1 (2020), disputada no circuito de Red Bull Ring, na Áustria.
O pontilhado uniforme indica abandono e o disforme indica penalização na classificação final.

Houve 121 ultrapassagens nas 71 voltas disputdas e o italiano Giovinazzi foi o piloto que efetuou mais ultrapassagens (15).
Acompanhe meu blog, para ver esses mapas da corrida, a cada etapa de F1 realizada.



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

25: A Última Vitória de Pace

Em 2008, finalmente o Brasil parece revitalizado na F1: na França Felipe Massa venceu e passou a liderar o Mundial pela primeira vez.

Na Inglaterra, Rubens Barrichello foi fenomenal na chuva e alcançou um terceiro posto muito significativo.

Na Alemanha, tivemos o excelente segundo lugar do jovem Nelson Piquet seguido do “outro” brasileiro Felipe Massa, fato que totalizou vinte-e-dois pódios com duplas brasileiras na história da F1. Até então, a última presença de dois brasileiros nos degraus da “festa do champanhe” fora no longínquo ano de 1991, ocasião em que o saudoso Ayrton Senna venceu o GP da Bélgica com Nelson Piquet (pai) terminando na terceira posição.

Mas, você sabe onde, quando e qual dupla brasileira iniciou essa série de vinte-e-dois pódios?

Foi no GP Brasil de 1975 –Interlagos- na vitória do rapidíssimo José Carlos Pace –Moco- (Brabham) seguido do bicampeão mundial Emerson Fittipaldi (McLaren).

Pace chegou na F1 em 1972 e em 1973 ficou em 11ºlugar no campeonato, pilotando o fraco Surtees TS14A-Cosworth. Apesar disso, foi considerado o quarto melhor piloto daquela temporada, atrás somente de Stewart, Emerson e Peterson.

Sua vitória no GP Brasil, dois anos depois, encantou novamente os olhos do seu amigo Luiz Antonio Greco, chefe da equipe Mercantil-Finasa/Motorcraft, que o considerava o terceiro “extraterrestre” do mesmo nível dos outros dois: Juan Manuel Fangio e Jim Clark.

Nesse ano de 1975, a equipe Mercantil era a favorita para o Campeonato Brasileiro de Turismo Nacional – Divisão 1 (categoria de carros nacionais fabricados em série, dividida em três classes: A até 1600cc; B de 1601 até 3000cc e C de 3001 a 6000cc), com provas de longa duração.

Greco convidou Pace para participar desse campeonato na equipe. Ele não hesitou: além de correr o Mundial de F1 pela Brabham, iria participar no campeonato brasileiro (Classe C) –em dupla com Paulo Gomes- pilotando o Maverick V8 Quadrijet de 4.950 cc da escuderia de Luiz Antonio Greco.

A dupla Pace-Paulo Gomes era a principal atração da Classe C em confronto com outros Mavericks, Opalas, Dodges e, junto com os da Classe A liderados pelos Passats, Chevettes e Fuscas 1600 cc formavam em média, sessenta carros no grid por prova. O campeonato teve cinco etapas. Paulo Gomes e José Carlos Pace foram os campeões do ano, vencendo três delas (12 Horas de Goiânia, 500 Km de Brasília e 12 Horas de Tarumã), abandonando nos 1000 Km de Brasília (junto com o terceiro piloto Nilson Clemente) e não participando dos 500 Km de Interlagos onde os vice-campeões Aluísio Andrade/Ricardo Lenz da equipe Sonnervig-Vicsa ganharam a prova, também com Maverick.

No Mundial de F1 Pace ficou na sexta posição e como campeão brasileiro da Divisão 1, fez questão de participar das 25 Horas de Interlagos, prova idealizada pelo eclético Antonio Carlos Avallone em 1973 e que marcou, nos dias 13 e 14 de dezembro de 1975, o encerramento do calendário automobilístico no Brasil.

Três pilotos brasileiros que estavam na Europa, seguiram o exemplo Dias Ribeiro (vice-campeão inglês F3 e estreante na F2 européia) junto com Ingo Hoffmann (sexto colocado no campeonato inglês de F3 e boas colocações na F5000) compartilharam o Opala nº1 da Equipe Itacolomy e ainda Antonio Castro Prado (Mundial de Marcas, Turismo Europeu e F2 européia). O piloto Alfredo Guaraná Menezes (quarto no campeonato de Fórmula Super-Vê do Brasil) era o outro componente do trio Ingo/Alex/Guaraná enquanto Prado dividia o Opala nº11 com Ricardo Soares de Oliveira e Antonio Cláudio Tarlá.

Outras atrações eram Francisco Lameirão (campeão de Fórmula Super-Vê), Afonso Giaffone/o veteraníssimo “Totó” Porto pilotando o Opala nº15, Lian Duarte/Jan Balder/Edgar Mello Filho com o Opala nº14 da equipe CB e a equipe Bamerindus com dois Opalas: o nº5 pilotado pelo gaúcho Marco Tedesco/Celso Freire/Edson Graczyk e o nº6 de Antonio Carlos Avallone/Marinho Amaral/Carlos Eduardo Andrade.

Bob Sharp estava com Pace e Gomes, pilotando o Maverick nº22. As outras “feras” presentes eram o motociclista Valter “Tucano” Barchi (cravou a pole-position) com os veteranos Jaime Silva e Fernando “Toco” Martins a bordo do Maverick nº10 do Team Tenenge; o jovem Chico Serra, Arthur Bragantini, Atilla Sipos, Reynaldo Campello, Ney Faustini, Newton Pereira, Aloysio Andrade Filho, o campeão da Classe A Francisco Artigas, o seu parceiro Eduardo Dória e muitos outros pilotos perfazendo um total de 43 carros no grid. Alinharam dezoito da Classe A (sete Mavericks, 10 Opalas e um único Dodge Dart) e vinte-e-cinco da Classe C (quinze Passats, nove Chevettes e um Fusca).

A largada programada para as 21 horas do dia 13 só foi acionada depois das 23 horas, devido à chuva que caia. Paulo Gomes, o “Paulão”, esteve muito consistente ao já assumir a ponta no início do Retão. Mostrou todo seu talento sob chuva, abrindo quase 4” por volta para Arthur Bragantini, o 2ºcolocado, e com o agravante de seu limpador de pára-brisa do lado esquerdo ter quebrado a partir da 5ªvolta!

Na 20ªvolta ele parou no pit para abastecer e arrumar o limpador do pára-brisa. Bob Sharp assumiu o volante e teve uma boa briga na pista com o novo líder, o Opala nº5 pilotado por Edson Graczyck. Este foi reabastecer e como o Maverick de Sharp estava pesado, o leve (pouca gasolina) Opala de Edgar Mello Filho assumiu a ponta. Este logo também foi reabastecer e a partir da 34ªvolta, só foi alegria para Bob Sharp, que abriu três voltas de vantagem para o segundo colocado, o Opala nº1 de Alfredo Guaraná/Ingo/Alex.

Bob Sharp liderava sem forçar o equipamento enquanto que o jovem Ingo Hoffmann na direção do Opala nº1 diminuiu a diferença do líder para uma única volta! Alfredo Guaraná passou a pilotar o Opala e na metade da prova ainda vinha na 2ªposição. Pouco depois, ele acordou o público com uma forte capotada na Curva da Ferradura. Para felicidade da prova (e da escuderia Itacolomy) o acidentado Alfredo Guaraná voltou à corrida, mas com três voltas de atraso sobre os líderes Pace-Paulão-Sharp.

Faltando menos de três horas para o fim, o Maverick da escuderia Mercantil ainda mantinha a vantagem de três voltas para o avariado Opala da Itacolomy. De repente o Maverick líder, pilotado por Sharp, pára na Ferradura! Ficou ali quase uma volta inteira e com muita dificuldade chegou ao box, onde permaneceu mais duas voltas checando o defeito. Trocaram a bomba de gasolina (mais tarde descobriram que o problema era sujeira no tanque e não propriamente a bomba) e finalmente, após um total de vinte-e-cinco minutos parado, voltou à prova com José Carlos Pace na direção.

Nisso, “o alemão” Ingo Hoffmann passou à liderança sob chuva, com quase um minuto de vantagem para Pace.

Ingo foi para o pit reabastecer e a equipe Itacolomy ficou discutindo quem iria tocar o carro nessa que era a parte final da prova. Decidiram que seria o “baixinho-voador” Alex Dias Ribeiro que ao entrar no carro teve problemas para prender o cinto-de-segurança e com isso, os trinta segundos normais de parada transformaram-se em mais de um minuto perdido. Assim, Pace reassumiu a ponta com Alex, quase um minuto atrás, em 2ºlugar. Faltando cerca de quinze voltas para completar as tão esperadas 25 horas, Alex bate seu Opala na saída da Curva do Sargento! O líder Pace passa ali e relaxa, pois com a batida do seu mais próximo concorrente, imagina que nada mais lhe tirará a vitória. Nessa mesma volta, seu relaxamento vira tormento, porque o carro novamente começa a falhar. Com muita dificuldade ele chega ao Box e a equipe faz um excelente trabalho de limpeza no carburador enquanto o “indestrutível” Opala de Alex, milagrosamente, também entra no pit para ser desamassado e seguir corrida! Pace perde dez minutos parado e retorna uma volta na frente de Alex que perde quinze minutos na parada.

Essa diferença de uma volta permanece até a 25ªhora, quando Pace cruza a bandeirada na ponta seguido de Alex na 2ªposição, com muita comemoração da sua equipe Itacolomy, por ter finalizado somente atrás do vencedor com o carro naquele lastimável estado de conservação...

Foram quase 2.900 km em pouco menos de 360 voltas percorridas. Foi a última vitória na carreira de Moco.

Em 1976 seu Brabham-Alfa Romeo foi um carro problemático na F1 mas, em 1977 era um dos favoritos para abocanhar o título máximo da categoria. Infelizmente no dia 18 de março ele perdeu a vida num acidente de avião junto com o amigo Marivaldo Fernandes.

Foi isso aí...

Abraço,
Sergio Sultani

José Calos Pace: Uma Homenagem Anônima

Arrumando um velho armário de casa encontrei dentro de um anuário, em um pedaço de papel
1969 - Pace e Marivaldo, vencedores dos 1000 Km de Brasília. Juntos na Eternidade.
manchado pelo tempo, o texto abaixo com dizeres escritos a mão: “PACE 18/03/77”.

 Foi o dia da trágica morte de Pace (junto com o seu amigo Marivaldo Fernandes)...

Depois de lê-la disponibilizo essa crônica anônima aqui, para os internautas.

Não sei quem escreveu esta homenagem a ele, mas posso afirmar que quem o fez, sabia da grandiosidade de José Carlos Pace, “Moco”. Aí vai:

“Absurdo, irreal, sem sentido. É tudo o que se pode, pensar, ainda se refazendo do soco dado no queixo de todos nós pela realidade inaceitável. Mas, "the show must go on", dizem os ingleses.

A semana que vem tem Grande Prêmio: todo mundo vai comentar: os jornais darão cobertura; a TV vai transmitir. Tudo como antes. Quase tudo.

No grid de largada, não falta apenas mais um piloto com seu carro de corrida. Faltará alguém que nesse circo poderia estar no lugar do mágico. Um Volks-Porsche em Interlagos, dando banho nas Carreteiras (1966); um Gordini, furando a neblina durante os 1600 km de Interlagos (1965) ou um recorde em Nurburgring, toureando um Surtees (1973), só pode mesmo ser coisa de mágico. Falta alguém que nesse circo pisava, da primeira à última volta, com o mesmo braço dos velhos campeões. Falta alguém para reclamar do carro, da equipe, da imprensa, de Deus e de todo mundo. Como você costumava fazer, na ânsia de sempre baixar o tempo um pouco mais.

Mas, só agora, é que todos percebem que ali estava um campeão. E, como todo campeão, em qualquer setor de atividade, você também trazia o destino marcado. Talvez, isso aconteça para chamar a atenção e, desta forma, fazer com que todos aprendam as lições que os campeões têm para ensinar. Foi com você, embora faltando-nos o sorriso fácil e o jeito para ser gentil, comum nos grandes ídolos, que nós aprendemos a perseverar e a brigar contra o acaso, contra a falta de sorte ou seja lá o nome que isso tenha. Um azar em Piracicaba; outro em Brasília; outro na França... Sempre assim. A adversidade roubando os pontinhos que, no final, poderiam ser a confirmação oficial.

Mas, quem gosta e entende dessa doença ou mania chamada automobilismo, sabe que não é apenas na soma de pontos que se faz um campeão. É preciso mais. Muito mais. É preciso talento pra tocar, igualmente forte, um protótipo Bino; um Turismo envenenado ou uma Fórmula Instável. É preciso sensibilidade para sentir na pista as imperfeições de um novo projeto; aos poucos desenvolvê-lo e disparar na frente, como o monstro da Alfa. O coração tem que ser grande e forte para suportar o choro sentido na morte do amigo Cevert. E, mais do que tudo, é indispensável a ingenuidade de uma criança, que só quer o seu brinquedo, sendo capaz de brigar quando ele a desaponta.

Por tudo o que foi dito, a gente acaba acreditando que não foi tanto azar o título que não veio. Porém, mais que um prêmio, vale a eterna lembrança. E, essa todo mundo sabe, fica para sempre e vira lenda. E são poucos os que têm essa sorte. Sorte, não. Poucos são os que têm essa marca. Marca de campeão. Campeão de verdade.” 

Autor: Desconhecido.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Luiz Evandro “Águia”: The “Rookie of the Year” nos EUA em 1987

Ele, Luiz Evandro Pimenta de Campos, paulistano nascido em novembro de 1942 recebeu do saudoso piloto Camillo Chistópharo o apelido “Águia”. Engenheiro eletricista formado em 1967 pela Universidade Mackenzie estreou nas pistas no dia 05/07/1964, quando finalizou na segunda posição no Grande Premio Vitória da Democracia no Autódromo de Interlagos - SP. Na ocasião pilotava seu VW sedan 1200 cc, preparado pelo saudoso Antonio Versa.
Desde então, totalizou mais de 250 provas oficiais – entre Pista e Rallye, sendo 50 delas no exterior (EE.UU, Canadá e  Argentina). Sua última participação como profissional foi em 1991 nas 24 horas de Mosport-Park- no Canadá quando finalizou na 2a colocação com o carro Honda Civic 1.6 cc.
Para melhor conhecermos o simpático Luiz Evandro –“Águia”-, resgato aqui a entrevista que ele me concedeu à alguns anos atrás:

Sergio: Você fazia parte da turma que se reunia nas sinuosas curvas do bairro Pacaembú para curtir automobilismo. Que época foi isso e conte alguns detalhes desses encontros.
Águia: Foi na década de 60, em 61, 62. Eu morava em Perdizes na Av. Antártica e muitos amigos
também residiam ali perto entre eles, Emerson e o Wilsinho Fittipaldi, na Rua Homem de Mello, o Joaquim Carlos de Mattos, o “Cacaio”, Serginho Arouche, José Carlos Pace o “Môco, “o “Pargas” da Buso e Buso, Paulinho Martinelli, o Fredy Keimich e o Paulo Costa “o “Pardal” e muitos outros . Havia um posto Shell onde o pessoal se reunia para bater papo e depois saíamos com os carros para dar umas voltas pelas ruas do bairro. Wilsinho Fittipaldi tinha uma perua DKW, meu pai também tinha uma perua DKW de 900 cc; de vez em quando meu Pai me “emprestava” o carro e eu saía para tirar umas arrancadas na Avenida Pacaembu com o Wilsinho e o Paulinho Martinelli, que tinha um Volks que andava muito... As vezes saíamos de lá e íamos para o “Toten”, na Av. Santo Amaro e depois dávamos algumas voltas pelas ruas do Morumbi. Freqüentávamos também o restaurante “Deck”, na Av. 9 de Julho. Nessa época eu não corria. Comecei a correr em julho de 1964, porque para participar de competições precisava ter no mínimo 21 anos de idade e meu pai não queria que eu corresse. Nós íamos também ao “Hot-Rod” que era uma lanchonete na Rua da Consolação, onde até o Jô Soares não saía de lá, pois ficava em frente a TV Record. Ele comia três “cheese-saladas” rapidinho!! Era uma época maravilhosa onde o pessoal se reunia, contrastando  com as reuniões de hoje na oficina do Fukuda, só que era tudo molecada. E eu comecei a correr aos 21 anos, quando
consegui fazer minha primeira prova, ocasião em que recebi do saudoso Camillo Christópharo o apelido “Águia”, já que meu pai não concordava com as corridas. 

Sergio: E como surgiu a chance de correr oficialmente pela primeira vez?
Águia: Antes de entrar nas corridas eu ia assistir as provas, em Interlagos. Pegava um ônibus da Viação Rio Bonito que ia por uma avenida que demorava duas horas  para chegar no autódromo. Nessas provas a gente acampava, em cima da Curva do Laranja, que apelidamos de “Esplanada”. O Wilsinho ia com seu DKW. O Serginho Arouche também acampava para acompanhar as corridas dos nossos heróis, entre eles o Bird Clemente que começou a correr alguns anos antes. Quando fiz 21 anos, consegui “emprestado” de minha mãe um Volkswagen 1200 cc. Levei o “besouro “ para o piloto Antônio Versa, que tinha uma oficina na Alameda Barros no bairro de Santa Cecília em SP. Ele instalou dois amortecedores do Chevrolet 34 na traseira, rebaixou a suspensão, substituiu o estabilizador dianteiro por outro marca “argus “,  mais grosso e fomos para Interlagos fazer um treinamento e viramos em 5’15”pelo circuito completo de 8 Kms; era o Grande Prêmio Vitória da Democracia, uma prova com promoção dos Diários Associados e uma homenagem à revolução de 31/03/64. A prova aconteceu no dia 05 de julho; largaram uns 40 carros e o Élvio Ringel que já havia feito uma prova antes, foi o vencedor. Essa foi minha primeira corrida , cheguei em segundo –já comecei como vice-campeão- (risos); o meu amigo Paulo de Oliveira Costa, o “Pardal”, foi terceiro. Depois de 40 anos houve um churrasco na oficina do Fukuda tiramos fotos e fizemos o “pódio” dessa minha primeira prova, foi  muita coincidência nós três estarmos presentes... Foi minha primeira prova oficial, não profissional . Na época você tinha que fazer três corridas para virar POC (Piloto Oficial de Competição). Depois dessa primeira corrida participei da prova “Uma Semana de Velocidade” em Setembro de 64 e finalizei em terceiro lugar, também com Volks 1200 cc.

Sergio: Nessa época você estudava Engenharia. Algum outro colega de classe, também seguiu a carreira de piloto?
Águia: Não, ninguém seguiu. Eu comecei fazer engenharia em 1962, me formei em 1967 e alguns colegas iam a Interlagos assistir. Eu era o único da minha turma que corria e eles comentavam: -“Óh, o Luiz Evandro, o Águia; Águia; Águia; vamos assistir...” Um deles era o Milton Dallari Soares, que foi secretário da economia no governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele e todos os outros meus colegas eram aficionados, iam assistir, mas ninguém participava.

Sergio: Como você conciliava a Engenharia e o Automobilismo ao mesmo tempo, durante os cinco anos de faculdade?
Águia: Foi uma barra pesada, porque além de fazer engenharia eu trabalhava. Comecei a trabalhar aos 14 anos. Minha tia tinha uma Casa filatélica e vendia selos de coleção. Aos domingos acontecia uma feira lá na Praça da República. E ela me preparava umas pastas com vários selos e eu ia de bicicleta para a Praça da República vender os selos. Ela me dava 35% de comissão, imagina (risos). Com esse dinheiro eu passava a semana toda, sem pedir dinheiro para meu pai. Meu pai me ajudou a pagar meus estudos e tudo mais. Quando entrei na engenharia, consegui um trabalho na Secretária da Saúde como técnico de laboratório, pois meu pai é médico anato patologista, era diretor do Instituto Adolpho Lutz, pesquisador científico, PQC4. Eu fiz um teste lá e consegui o emprego de técnico de laboratório. Fazia exame de sangue com microscópio, contava células hemácias, leucócitos, etc. Então era difícil porque eu não conseguia me dedicar exclusivamente às competições. Não consegui me profissionalizar. Em 1965, depois que eu fiz essa corrida de Volkswagen 1200, a maioria dos pilotos já estava andando de Renault que era muito mais rápido, apesar de ter 850 cilindradas, pois
era o carro mais moderno. Fui até a Caixa Econômica Federal que estava financiando vários carros populares em três anos: o Renault Teimoso, o Volkswagen Pé-de-boi e o DKW caiçara. Eram carros populares que não tinham friso, acabamento interno, o banco era de arame. Eu fiquei três dias na fila –dormia lá- para conseguir comprar um Renault Teimoso. Após a aquisição, levei o “Teimoso” na Torke –do Luiz Carlos Fagundes- o “Tigrão” . Consegui sim uma ajuda muito grande do “Tigrão” que era o dono dessa oficina que antes pertencia ao Luizinho Pereira Bueno; ele falava assim: -você irá correr também em circuitos de rua e vai ganhar corridas. Daí, fomos para Piracicaba e Joaçaba-SC. Ele tirava o motor e câmbio original do carro e colocava o motor e câmbio de competição, preparado pelo mecânico Alemão. Instalava um conta-giros, relógios de temperatura e pressão do óleo, para participar das competições. Íamos rodando com o carro de corrida pelas estradas e nem tinha cinto-de-segurança. Na segunda-feira, após a corrida eu levava o carro na oficina, tirava o motor e câmbio de competição, colocava o original e eu ia trabalhar com o carro já original . Quer dizer: o carro de passeio era o carro de competição. Assim começou tudo, com a ajuda do Tigrão da Torke. Se não fosse ele, eu não teria condições pois não tinha patrocínio, não tinha nada. E o dinheirinho que eu ganhava com meu trabalho eu comprava pneu e pagava em 4 vezes lá na Caçula de Pneus. Fui me virando assim. Tanto é que eu  era um amador, mas corria contra os carros oficiais das fábricas. Eu conseguia até bons resultados no meio da turma toda e consegui pagar o carro totalmente (30 meses ...).

Sergio: Em 1967 você já tinha participado de várias provas e se formou engenheiro. O que mudou nesses primeiros anos como engenheiro? E como piloto?
Águia: Me formei em 1967 e fui trabalhar em 1966 - como estagiário - na Light ( hoje Eletropaulo )
na função auxiliar técnico. Já não estava mais na área de saúde. Eu tinha um primo que era diretor de uma empreiteira que prestava serviço para a Light. Ele me chamou para trabalhar com ele e meus colegas continuaram na Light. Essa empreiteira me pagava quatro vezes mais do que a Light pagava
aos meus colegas. Então eu ganhava muito mais do que todo mundo. Juntei esse dinheiro e com o tempo, comprei um Puma Volks 1.6 cc na loja do meu amigo Dante Di Camillo e levei o carro para ser preparado na oficina Kinko dos irmãos japoneses Takeo e Chiro Tamaki ; eles não me cobravam nada de mão de obra. Estreamos esse Puma VW nos 1000 Kms de Brasília em 1969 e finalizamos na 12a colocação , após quebra do pára-brisa dianteiro – estávamos na 8o colocação na ocasião... Também corremos em Curitiba e terminamos em 7o lugar. Enfim foi isso: eu fui trabalhando e competindo, sempre como piloto amador, pois profissionalmente foi depois. Então de 1967 a 1972 trabalhei no estado de São Paulo como engenheiro na construção de redes de distribuição de energia elétrica de alta tensão. Fui fazer um curso, nos Estados Unidos, de como substituir o poste sem desligar a rede elétrica. Gostei do equipamento americano e acabei comprando. Era a época que trabalhava com meu primo. Em 1973, fui para Salvador- Bahia e montei uma firma própria lá, pois tinha menos concorrência e o equipamento era moderno. Fiquei dez anos em Salvador. Me casei em 1974, meus três filhos, Claudia, Carolina e Carlos Augusto (Guto) foram “encomendados” em Salvador, mas nasceram em São Paulo (risos). Então fiquei 10 anos, competindo, morando em Salvador, viajando para São Paulo, correndo os 1000 Km de Brasília, indo na oficina, etc. Foi uma barra pesada e não larguei nunca do automobilismo; foram 27 anos ininterruptos. Em 1982 meu concorrente quis comprar meu equipamento americano e acabei vendendo a firma inteira para ele.
Daí, de 1982 a 1992, fui me dedicar profissionalmente ao meu hobby que era o automobilismo.
Começaram então a aparecer ótimos resultados: já havia sido campeão Paulista de Rallye de Regularidade (1974) e em 1982 fui Campeão Brasileiro de Rallye Velocidade. Na ocasião ganhei um premio da Volkswagen do Brasil ( um carro Gol Zero km). Posteriormente fui Campeão Paulista de Marcas (1986) e em 1987 acabei indo competir nos Estados Unidos e Canadá.

Sergio: As provas de longa duração passaram a ser uma constante na  sua carreira até os anos 70. Tem uma ou outra, em especial, que você gostaria de destacar aqui. E por quê?
Águia: Os 1500 km de 1971, com o protótipo “Kinko” de mecânica nacional, construído pelo Salvatore Amato e preparado pelos irmãos Takeo e Xiro Tamaki,  da Kinko que era uma oficina mecânica situada na Avenida Rouxinol, em Moema.
O nome Kinko veio de uma cidade do Japão. Os pais desses japoneses nasceram em Yokohama e essa cidade era considerada porto do ouro. Kinko em japonês significa porto do ouro. Nessa prova de 1971, chegamos em quarto lugar na geral e em 1º lugar na Categoria Mecânica Nacional, o vencedor foi Ciro Cayres-Jan Balder com BMW. Foi uma prova espetacular; muitas saudades dela... Já havia participado de algumas provas longas em 1967-1968: 1000 Km de Brasília, 6 Horas de Interlagos e existiam mais provas de longa duração nessa época do que atualmente. Eu participei de várias Mil Milhas, das 24 e 25 Horas de Interlagos, cinco vezes nos 1000 Km de Brasília, 1000 Kms de Goiânia, Guaporé, Tarumã, 1000 Kms da Guanabara, e muitas outras. O 2º lugar na geral nas Mil Milhas de 1983 com Stock Car e também o 2º lugar nas 24 horas de Mosport Park , no Canadá com Honda Civic Si considero resultados importantes.

Sergio: Depois você passou a participar assiduamente das competições de Rallye. Quais foram os títulos que você conquistou nessa categoria e o que de  bom tirou profissionalmente nesses anos?
Águia: Em Rallyes comecei em 1966 com Renault Teimoso. O maior e mais longo que participei foi o Rallye de Integração Nacional em 1970 –de Fortaleza ao Chuí- 14 dias de prova com Volks TL
preparado pela Kinko. Meu navegador foi o Luiz Sergio Xavier “o Xaxá”. Fui Campeão Paulista em 1974 e depois disso o Luis Antônio Greco, chefe da equipe Ford,  percebeu que eu estava ganhando muitas provas e me chamou para participar oficialmente da equipe da fábrica. Quem me informou da intenção do Greco foi o meu amigo Paulinho Martinelli. Fiquei competindo durante uns três anos pela equipe Ford. O Rallye te ensina muito porque você não pode errar. Além disso tem barro, você vai aprendendo. Tanto é que quando tinha corrida em Interlagos com chuva eu me dava bem porque parecia um “rallye”. O Rallye é uma escola, assim como o kart. Todos que saem do rallye e vão para corrida, se dão bem. ( Nigel Mansell p. ex.).

Sergio: Na volta aos carros de Turismo, você conquistou quais títulos? 

Águia: Ganhei muitas provas, provas longas e curtas: 6 Horas de Interlagos de 1968 terminei na sétima na geral com o Renault 1093, vitória do Bino ; 1000 Km de Brasília 1969 estava em sétimo e quebrou o pára-brisa, depois que no fim da descida da Av. W-3 abriu o capô, chegamos em 12º; Campeonato Paulista de Rallye em 1974 e Brasileiro de Velocidade de 1982, vice-campeão das Mil Milhas de 1983 com Opala Stock Car. Mil Milhas de 1988 participei com Ford Escort XR3 em dupla com Dede Gomes, 4º na geral, 1º na categoria Marcas. Várias provas em Brasília, Goiânia, Guaporé, Tarumã e outras que me fogem da memória agora.

Sergio: Em 1985, você participou do Paris-Dakar. Como foi isso?
Águia: Foi através da empresa Engesa Engenheiros Especializados que fabricava aqueles tanques de guerra (Urutu, Jararaca ,Cascavel). Eles exportavam muito para a África e Arábia Saudita. A Engesa
fabricou um jipe chamado EE4. Era muito parecido com o jipe Mercedes. Eles pretendiam participar
do Rallye Paris-Dacar com esse jipe. Como eu era engenheiro e havia conquistado o título de Campeão Brasileiro de Rallye fui contratado pela Engesa, como consultor, para acompanhar o Paris-Dacar com a finalidade de analisar o que seria necessário para participar do Rallye no ano seguinte. Como seria ficar 10 dias no deserto? Preparação dos carros, logística, etc. Não falava bem o francês, o inglês sim, e me enviaram para Paris, antes do Natal; passei o Natal e o Ano-Novo sozinho em Paris; fiz minha inscrição como participante para acompanhar o Rallye junto com a imprensa. Custou US 4000,00 - (sem carro claro.) e posteriormente solicitei uma visita a uma concessionária Mercedes, a “Como Automobille”, para acompanhar a preparação de alguns jipes Mercedes que estavam sendo montados lá. Consegui fazer fotos da suspensão e outros detalhes. A imprensa também tinha que pagar a inscrição, pois eles davam transporte de avião, alimentação no deserto e tudo isso envolvia um custo. Na época, fui com US10.000 dólares em travell-check. A largava foi no dia 1º de Janeiro. Nós fomos com um avião turbo-hélice da British Airways. Eu me lembro que no fundo do avião tinha um tambor de combustível de 200 litros amarrado com uma rede, pois no deserto não tinha como o avião reabastecer. O avião pousava e decolava no deserto, aquele calor insuportável: três minutos para levantar vôo, porque turbo-hélice no calor não tem muita potência. Cabiam 30 pessoas no avião mas embarcaram 45, pois havia jornalistas do mundo inteiro. Conheci vários deles. A gente chegava no final da etapas classificatórias antes dos competidores praticamente acompanhávamos em sentido contrário o rallye para tirar fotos no meio do caminho e tal. À noite, acampávamos no deserto e a África Tour –empresa de turismo- nos fornecia alimentação: uma sopinha quentinha, e alguns legumes; tenho até hoje o pratinho guardado em casa . E você se alimentava junto com os pilotos. Ficávamos todos juntos acampados na barraca. Foi uma experiência incrível, maravilhosa. Aí voltei para o Brasil, fiz o relatório para a Engesa. Desenvolvemos um jipe aqui com carroceria de alumínio, motor de 6 cilindros da Stock-Car. Na época eu coordenava o departamento esportivo da Engesa e o Almir Klink queria participar como navegador no Rallye até o próprio Ingo Hoffmann também manifestou interesse em participar do Rallye. O jipe foi montado baseado no que tínhamos visto lá fora e infelizmente no ano seguinte a Engesa teve problemas financeiros, acabou fechando e encerrando suas atividades. Foi a primeira vez que um brasileiro acompanhou o Rallye Paris-Dacar. Esteve também acompanhando esse Rallye o jornalista e piloto português Francisco Santos.

Sergio: No ano seguinte, porque você entrou nos bastidores sendo vice-presidente da FASP? Qual era sua proposta de trabalho e quanto tempo você permaneceu vice-presidente?
Águia: Isso foi uma passagem interessante. A Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) era presidida por Joaquim Cardoso de Melo, um português que estava lá há “séculos”. Então nos reunimos, vários pilotos: Eu, Emerson, Wilsinho, Bird Clemente, Lian Duarte, Carlos Cintra Mauro o “Lua”, Dr.Carmine Maida (do Automóvel Clube Paulista), os jornalistas Fernando Calmon, Marco Antônio Lelis, Boris Feldman de Belo Horizonte e com apoio do Prof.Manoel Tubíno, Presidente do CND (Conselho Nacional de Desportos) e de outros pilotos e jornalistas queríamos mudanças. Para isso, precisávamos ganhar a eleição para a CBA. Como fazer? Inicialmente, deveríamos começar por São Paulo. Caio Alfaia era candidato aqui à presidência da Federação. O Emerson Fittipaldi fez esta sugestão :
 - Tenho um amigo que aceita ser candidato; chama-se Marcos Corsini e como você corre, ele entra como presidente e você como vice. Pode ser assim?
Daí, começamos a campanha: visitamos vários clubes entre eles o IMC do Elcio e Claudinho, o Expedito Marazzi (era dono da escola de pilotagem que hoje é do Manzini), Paulo Scaglione que era do Automóvel Clube da Lapa, o Paulistano Motor Clube do A.Bastos, para tentar conseguir ganhar os votos. E no fim, nossa chapa ganhou a eleição. O objetivo era ajudar a Federação em suas atividades e num futuro próximo, ganhar a CBA, trazendo assim a Presidência para São Paulo.
Para nos auxiliar nessa cartada, procurei a Engesa e consegui um patrocínio político para a campanha. Daí, nos reunimos com o Lua, que era o procurador do Nelson Piquet e elaboramos o Livro Amarelo da FIA (que seria nosso programa de trabalho para o próximo mandato na CBA). Eu fui encarregado de coordenar tudo e viajei pelo Brasil inteiro para conversar com todos os presidentes das federações, mostrando o trabalho que pretendíamos fazer, mas ainda não havíamos montado a chapa para concorrer as eleições até aquele momento. Nenhum de nós queria ser o presidente pois pretendíamos continuar correndo. Então nos reunimos eu, o Fernando Calmon e o Carmine Maida que era o presidente da Automóvel Clube Paulista e resolvemos convidar o Piero Gancia, um ex-piloto de sucesso e que estava na Suíça. Telefonamos para ele e ele aceitou com muita satisfação. Fomos ao Rio de Janeiro, montamos a chapa, contra a chapa do Joaquim Mello. Nossa chapa com Piero Gancia ganhou, faltando apenas dois meses para o GP Brasil de F1 que seria realizado no Rio. O Piero me solicitou que ficasse alguns dias lá no Rio para dar uma “força” na organização do GP. Aí, sabe do que fiquei encarregado?
Do credenciamento da F1! Fiquei praticamente sem dormir uns 4 ou 5 dias (risos). Me ligavam deputados, presidentes de empresas. Foi uma loucura. Depois, fiquei assessorando o Piero durante alguns meses até ele tomar conhecimento da rotina da CBA, quando convidou a Dona Regina que era sua secretária particular para ser  sua colaboradora direta ; eu mesmo levei D.Regina de carro de São Paulo ao Rio e fui passando algumas informações de como funcionava uma entidade esportiva. Posteriormente, eu me afastei da CBA e fui cuidar da minha vida, já que estava tudo sob controle. Logo após a assembléia da eleição, o ex-presidente concorrente Joaquim Mello me abraçou dizendo: -Você que ganhou essa eleição, parabéns!
Tivemos muita ajuda do CND (Conselho Nacional de Desportos ) na época com seu presidente Manuel Tubino. Ele via que a turma de lá não estava fazendo nada pelo automobilismo, principalmente porque não queriam que uma etapa da Fórmula Indy fosse realizada aqui no Brasil. Por isso que o Emerson também queria mudar. Trabalhei muito nessa campanha e até ganhei uma credencial de “Pit lane” do Thamas promotor da Formula I do Brasil (risos)...

Sergio: Em 1987 você resolveu correr na América do Norte. Já tinha fechado algum contrato, antes de ir? Como foi essa decisão e o que mudou em sua vida, em função dela?
Águia: Foi um sonho que realizei 23 anos depois da minha 1a corrida em Interlagos. Vários amigos
meus, entre eles Emerson Fittipaldi e José Carlos Pace, foram para a Europa. Como é que eu poderia ir? Tinha acabado de me formar engenheiro, estava trabalhando e sem dinheiro. Não tinha condições.
Quando o “Moco” estava correndo pela Surtees o John Surtees veio para o Brasil ele se hospedou num hotel na Líbero Badaró –todos pilotos estavam lá-. Fui apresentado ao J.Surtees pelo piloto Antonio Carlos Scavone (primeiro organizador do GP Brasil). Oobjetivo era o de tentar ir trabalhar na equipe Surtees lá na Europa. Mais não foi possível, pois para viajar para a Europa naquela ocasião não tinha grana! Então, fiquei com isso na cabeça: quero correr fora do Brasil. Em 1986 eu resolvi assistir umas corridas de Turismo nos Estados Unidos e pedi uma credencial para o Emerson, pois na preliminar da F- Indy aconteciam provas da Volks Golf Cup Series. Ele falou: - Me avisa com antecedência que te arrumo. Resolvi ir numa prova –acho que em Mid-Ohio-, não me recordo bem. Cheguei na portaria e mandei chamar o Emerson: - Aqui é o amigo dele do Brasil (risos).
Aí ele atendeu no rádio : -Pô “ eagle ”! O que você ta fazendo aqui? Você podia ter me avisado antes! Você deu a maior sorte porque eu tenho direito a cinco credenciais por corrida e por acaso não tem nenhum convidado meu aqui (risos). Eu te dou uma.
E se as cinco já tivessem sido usadas? Eu não conseguiria entrar nos Boxes! Ele mandou colocar meu nome como convidado dele e recebi uma credencial de transito livre! Entrei e fui assistir a preliminar: estavam lá o Les Behm da equipe Team Behm (que era uma concessionária VW do estado de Wisconsin). Ele participava com seu filho Mark Behm do Campeonato Volks Golf Cup Series com carros Volks GOLF.
Aí, conversei com Les Behm e Mark Behm – pai e o filho-. Eu tinha o patrocínio da Monroe no Brasil , acertei os custos e fui fazer um teste em Riverside, na Califórnia, em fins de 1986.
Fui muito elogiado no teste e acertamos para 1987. Participei do campeonato inteiro –algumas provas
eram preliminares da - F-Indy-. Recebi naquele ano o título “Rookie of the Year”, pela minha performance apesar de não ter sido campeão. Cheguei em 4º no campeonato, na frente de pilotos que já estavam a muitos tempo (alguns com mais de 05 anos) disputando a categoria. Assim começou minha carreira nos Estados Unidos.
Tive um retorno maravilhoso, pois até aquele ano o Emerson ainda não havia sido campeão da Indy e também ganhei dinheiro, pois a premiação era muito boa . No final desse ano de 1987 acabei até ganhando um carro Audi 5000 CS turbo de premio. Em 1988 corri pela Volkswagen novamente, mais em provas de Endurance com Volks Golf GTI e também disputei o Corvette Challenge com carros Covette Z 51, em 1989 fui para a Addison Honda do Canadá e pilotei os velozes carrinhos Honda Civic Si , Honda CRX e Honda Acura; também em provas de Endurance aonde fiquei até 1991.
Deixo aqui meus agradecimentos ao Otazú e ao Rodolfo Siqueira da Five Star Marketing (hoje Máster Mídia), pois, foram eles que divulgaram com muita eficiência os meus resultados aqui no Brasil.

Sergio: Nesse seu primeiro ano, você já ganhou o respeitado título Rookie of the Year. Qual a importância desse título no andamento da sua carreira, como piloto?

Águia: É fundamental. Tem muito prestígio lá fora e significa o melhor piloto estreante do ano naquela categoria. Eu tinha 44 anos e não havia participado de nenhum campeonato nos Estados Unidos. Se eu já tivesse participado em alguma outra categoria já não seria mais “Rookie”.

Sergio: E como foram esses quatro anos como piloto fora do Brasil?
Águia: Corri de Volkswagen Golf, Golf GTI, Honda Acura que é um Honda de maior cilindrada Honda Civic , Honda CRX, Honda Civic/ Muggen e Chevrolet Corvette Z 51. Participei de Preliminares da F1 e Formula Indy.
A maioria das provas eram de longa duração sempre em dupla com pilotos estrangeiros e em 1988 convidei o Fábio Greco para fazer algumas provas de Endurance comigo, com Golf GTI 2,0.

Sergio: Tenho a informação que em 1991 você parou de correr e foi gerenciar uma escola de pilotagem no Canadá. Isso é verdade? Se sim, quanto tempo durou esse seu magistério e por que voltou ao Brasil?
Águia: Sim. Consegui a representação exclusiva para o Brasil da Spenard David Racing School (hoje Bridgestone Racing School). A sede ficava no estado de Ontário, dentro do autódromo de Shanonville, circuito misto. Levei uns 20 pilotos para lá. Eu oferecia um pacote completo com avião, hotel, treinos , aulas teóricas e praticas -sempre com minha presença- e por um custo único. Eu ganhava comissão da escola, dos hotéis e das passagens aéreas.
A escola também organizava e oferecia aos que eram aprovados no curso, um campeonato (de 10 etapas) com os Formula Ford 2000. Dois pilotos brasileiros foram campeões após disputarem contra pilotos americanos e canadenses. O nome deles: Walter Garcia (o Bolinha) e o Zaqueu Morioka. Voltei ao Brasil para acompanhar a carreira de meu filho Carlos Augusto Campos o “Guto Campos” atleta da seleção Brasileira de Canoagem Velocidade -ele representou o Brasil nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg/Canadá em 1999 ( ganhou 4 medalhas – 1 prata e 3 bronze); em 2003 no Pan de Santo Domingo ganhou o primeiro ouro da história da canoagem brasileira (e mais uma prata) e no Pan do Rio 2007 (mais um ouro) tornando-se assim o primeiro atleta da canoagem do Brasil a conquistar um bicampeonato Pan-americano após já ter sido Campeão Paulista/Campeão Brasileiro e Sul-americano; também esteve na Olimpíada de Sidney 2000 quando foi semi finalista (12º lugar).

Sergio: E quem é o engenheiro Luiz Evandro Campos, “Águia”?
Águia: Já falei do começo, fiz vários cursos no exterior, ainda na faculdade, e em 1991 comecei a
trabalhar com telefonia internacional, celular, participei de várias Feiras de Telecomunicações nos Estados Unidos e comecei a 
desenvolver a minha área de engenharia, que é atualmente é a de telecomunicações. Abri minha empresa, a World Gateway Service Engenharia Ltda. Ofereço serviços de ligações telefônicas internacionais mais econômicas para quem está fora do Brasil. 
Vários pilotos brasileiros que corriam no exterior utilizaram meu sistema. Continuo no meio, trabalhando com isso aí... Daí,  fiquei meio afastado como piloto atuante, mais nunca deixei de me encontrar com meus amigos pilotos das “antigas”. 

Sergio: Fale um pouco da sua volta às pistas em 2003.
Águia: Resolvemos em 2003, montar o campeonato da “Historic Racing Cars” para tentar resgatar a
historia do automobilismo brasileiro. Em reunião na Fasp, com o Professor Carpinelli, Vladimir Silva e seu filho Luiz Henrique que preparavam DKW na década de 60, com o jornalista Flavio Gomes, o colecionador de autos antigos Luiz Finotti e seu filho Nenê Finotti foi criado o 1º regulamento para competições de carros antigos. Comprei um Willys Interlagos Berlineta ano 1966. Levei na oficina do Elisio Casado (ex- equipe Willys) que também foi meu preparador do meu Ford Escort XR3 em 1986 quando fui campeão paulista de marcas. Ele fez o motor do meu Interlagos e ganhei 4 provas, uma delas na chuva foi sensacional, deixando BMWs e outros carros de maior potencia atrás. Acabei ganhando o campeonato em 2004 e parei por aí...

Sergio: Para encerrar, qual a importância que você acha que tem o resgate da história do automobilismo brasileiro? 
Águia: Fundamental, porque o brasileiro tem memória curta e pensa que é só F1. Não é assim... Lembre o que o Bird comentou no livro dele.
As reuniões que temos feito lá na oficina do Fukuda em Santana, são também um resgate de nossas historias, porque nessas reuniões lembramos muitas passagens memoráveis, da década de 60.
Gostaria de mencionar aqui os nomes dos pilotos que foram meus companheiros nas corridas disputadas no Brasil:
Paulo “Pardal “ de O.Costa ; Stanley Ostrower ; Ricardo Ostrower ; Expedito Marazzi ; Dedê Gomez ; Mike Mercedez ; Ingo Hoffmann ; Marcelo Aickel ; Luiz André Ferreira ; Mario Pedro Ferreira ; Fabio Crespi ; Fredy Keimich ; Julio Caio de  Azevedo Marques ; Paulo Martinelli ; Azizo Elmor Jr ; Fabio Greco ., Dante Di Camillo ; Walter Peticov ; Paschoal Di Grassi e Junior Di Grassi e nos Rallyes Luiz Sergio Xavier ( Xaxá ) ; José Ivo Leite ; Ricardo Costa ; Olavo Barbour ; Dedê Gomez , Pepe Mélega e Serginho Soares.
Agora parece que vai melhorar com a continuidade do Campeonato Paulista de Antigomobilismo.
Então por essa atitude, eu cumprimento e elogio a diretoria da Federação: por terem aprovado um regulamento que cabe todo mundo dentro. Isso é fundamental para o resgate da história do automobilismo porque vários pilotos novos irão conseguir saber o que fizemos no passado. Com que? Com os carrinhos Renault Gordini, Berlineta Interlagos, Ford Corcel, Chev,Chevette.. e muitos outros; então o resgate é fundamental!
Eu pilotei durante minha carreira os seguintes modelos:
Willys Interlagos , Renault Gordini , Renault 1093 ,Renault Teimoso , Renault 4 CV “Rabo Quente , VW Passat – TS , VW Voyage , Chevette 1.4 ; Fiat 147 1050 cc ; Protóptipo Kinko Div 4– 1.7 cc ; VW Sedan- Hot Car 1700 cc ; VW Puma ; Ford Corcel Sedan , Ford Corcel Belina , VW Gol 1.6 ; Ford Maverick GT ; Ford Escort XR 3 ; Chevrolet Opala 250 S ; Chev Opala Stock Car ; Protótipo Audi 2.0 e no exterior : VW Gol GTI ; Honda Civic Si ; Honda CRX Si ; Honda Acura 2.2.cc ; Chevrolet Corvette Z 51 ; Honda Civic Si – Muggen.
Esse blog que você está fazendo Sergio, de lembrar pessoas que fizeram e que passaram, é importantíssimo, pois o pessoal esquece!
A turma dos 35 anos ainda me conhece: Rubinho, André Ribeiro, Gil de Ferran. Isso porque quando eles estavam no início de suas carreiras vitoriosas, eu já estava correndo nos Estados Unidos e obtendo bons resultados o que foi muito divulgado na mídia escrita, falada e televisada. Agora essa turma nova que está no kart, não sabe quem foram os pilotos da década de 60 e o que fizeram. A turma média sabe. A turma do antigomobilismo sabe um pouco porque eu corri em 2004, ganhei corridas e fui campeão novamente aos 62 anos,( risos).
O resgate é fundamental Nossa; até emociona a gente. Sem isso aí , não teria história.

Sergio: E eu não estaria aqui (Risos).



Sergio Sultani