segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

O Maestro da Mecânica: Miguel Crispim

Em 1958, a montadora Vemag S.A (Veículos e Máquinas Agrícolas) estreava oficialmente na corrida Mil Milhas de Interlagos, com o carro DKW, pilotado pelos gaúchos Karl Iwers e Flávio Del Mese.

Paralelamente a isso, um jovem aficionado por mecânica prestava como mecânico, no interior de São Paulo, o serviço militar obrigatório. Seu nome: Miguel Crispim Ladeira, mais conhecido como Crispim.

Muito simpático e de bem com a vida, Crispim trabalhou como mecânico, desenhista, projetista, chefe de equipe, instrutor e dono de oficina. Hoje, seu conhecimento profissional, sua vivência na formação do automobilismo nacional e seu trabalho excepcional no desenvolvimento da indústria mecânica é reconhecido entre todos que conviveram com ele.

O nome CRISPIM nos boxes de Interlagos até hoje soa como “O Maestro da Mecânica”.

Com essa sucinta apresentação do Sr. Crispim, abaixo transcrevo algumas partes de um bate-papo descontraído que tivemos no dia 23/05/2009, um sábado de muito sol em São Paulo.

1. Sultani: Você entrou na VEMAG depois de um teste com menos de 20 anos de idade, certo? Como você soube desse exame ?
Crispim: Eu saí do quartel e um amigo meu conhecia o Murillo Correa, gerente de vendas da VEMAG. Esse meu amigo me perguntou:
- Você não quer trabalhar na Vemag?
- Eu quero trabalhar em qualquer lugar, respondi.
- Eu vou falar com ele para ver se tem uma vaga para você.
Sobravam vagas na época. Eles traziam muitos técnicos da Matriz para treinar pessoas, geralmente vindas da lavoura que eles chamavam para trabalhar na Indústria.Tinha muita gente.
Fiz um teste; passei e o curso “Técnico Industrial“ de mecânica da Escola Técnica Getúlio Vargas que tinha feito, me ajudou muito lá.
Começava a ser desenvolvida a Indústria Automobilística no Brasil. Não tinha nada. Tanto que as primeiras rodas mais leve, e um monte de outras coisas, fazíamos a mão.
Tínhamos um gerente alemão, Hermut Brand que participou da Segunda Guerra Mundial (o Jorge o chamava de Tio). Ele veio para o Brasil para chefiar o Departamento de Testes da Fábrica onda se fazia desenvolvimento dos produtos. Entrei na Vemag como meio oficial mecânico B.O Departamento de Testes tinha seis automóveis: 2 Candangos, 2 Vemaguetes e 2 DKW. Esses carros andavam o tempo todo e depois eram desmontados, para se avaliar o desgaste das peças. Dentro do Departamento de Testes tinha o setor de Protótipo onde se produzia os produtos novos.

2. Sultani: Foi na entrevista de admissão que você conheceu o Jorge Lettry?
Crispim: Não. Conheci o Jorge lá na Vemag, já trabalhando no Departamento de testes. Eu tinha 19 anos de idade. Digamos que ele foi meu primeiro chefe. Ele era responsável pela preparação dos carros de Corrida que nesta época, quando entrei na Vemag, era feito pelo Departamento de Teste. Jorge foi uma pessoa muito importante na minha vida.

3. Sultani: Seu objetivo na Vemag era as corridas ou foi o destino que te levou a elas?
Crispim: Eu nem sabia o que era corrida. Em 1960 a Vemag participou das Mil Milhas, em novembro, se não me engano, e eu fui convocado para ir lá trabalhar lá em Interlagos.

4. Sultani: Sua primeira participação da equipe em competições foi nas 1000 Milhas de 1960?
Crispim: Sim. Eu nunca havia ido a Interlagos. Eu não sabia nem chegar lá. Como já disse fui lá ajudar e... Entrei e daí, nunca mais parei. Quando foi criado o Departamento de Competições, em 1962, ou 1963, eu passei a ser encarregado dos mecânicos e o Jorge gerente do departamento.

5. Sultani: Você chegou a trabalhar para os pilotos Christian Heins e Eugenio Martins? 
Crispim: Com o Geninho sim, além do fato de ele haver corrido com DKW, pela Revenda Serva Ribeiro e ser muito amigo do Jorge, trabalhamos juntos em uma firma que ele tinha lá no Bairro da Lapa, em meados dos anos 80. 
Com o Christian Heins (que aprendeu muito do que sabia com o Jorge Lettry) convivi em Interlagos. Éramos concorrentes, ele pela Willys e nós pela Vemag; participávamos das mesmas provas.

 6. Sultani: E a partir de que momento seu trabalho teve destaque para o Departamento de Testes da Vemag?
Crispim: Por ter adquirido conhecimento de desenho na Esc.Tec.Getúlio Vargas, o Jorge me apresentou um projeto e perguntou se seria possível construir aquela peça, (o suporte para o reservatório de óleo de motor, para se testar o sistema “Lubrimatic”nos motores DKW), pois o Deptº de Engenharia havia dito que seria necessário a construção de um estampo para isso e o processo seria muito dispendioso. Após um breve estudo, eu disse ao Jorge que sim e o fato de ter feito a peça sem maiores custos, nos aproximou muito. Daí passamos a partilhar vários desenvolvimentos juntos...

7. Sultani: Você preparou os carros da Vemag. O motor tinha componentes alemães?
Crispim: Não. Só a correia do ventilador e a junta do cabeçote. O resto era nosso. 
Nas Mil Milhas de 1961 tiramos 108 cavalos do motor DKW. Era o veículo mais rápido do Brasil. Aquele motorzinho com 108 cavalos, 1080 cc. Não é cavalo de conversa, não! Foi na balança do Dinamômetro na ponta do eixo do virabrequim. Era época em que fazíamos as contas com régua-de-cálculo, na unha! Nessa prova tivemos de trocar as lonas de freio durante a corrida, porque embora freasse muito, o consumo de lona também era bastante alto. Acertamos tudo: eu e um mecânico ( António Martins) do lado direito e o meu amigo Milton Masteguim – mais tarde dono da Revenda MM- que sempre estava lá para nos ajudar, e outro mecânico (Hikeda) do lado esquerdo.
Entre a parada, levantar o carro, retirar a roda, retirar o tambor de freio, as lonas e molas, colocar tudo novo de volta, regular as lonas e, ainda, baixar o carro eu e o António gastamos exatamente 2,0 minutos. Enquanto isto, o Milton e o Hikeda não haviam nem retirado o tambor.

8. Sultani: Você tem alguma história que Jorge Lettry realmente “enlouqueceu”? 
Crispim: Não. Nunca. Ficar nervoso, como todos nós ficamos, sim. Uma vez fomos correr em Piracicaba e ele muito preocupado falou para os pilotos Anísio Campos que estava pilotando Belcar DKW e Chico Lameirão que estava com o Malzoni:
 - Olha, muito cuidado. É a primeira vez que vocês vão andar em circuito de rua. Muita atenção. Vão devagar, com calma, etc, etc. No primeiro dia Anísio saiu reto em uma curva e bateu. Depois Lameirão ia pela parte do circuito que tinha até trilho do bonde no meio da rua , na saída da curva, perdeu a direção, decolou e caiu dentro de um galinheiro! O Lettry realmente ficou bastante aborrecido ao ponto de quase desmaiar...

9. Sultani: O Jorge era realmente muito exigente? Ele ouvia suas idéias? Como era o dia-a-dia com ele? 
Crispim: Sim. Ele tinha uma determinação incrível. Ele era um autodidata. Ele tinha princípios de vida maravilhosos. Uma conduta admirável. Convivi com Jorge 48 anos. Ele morreu meu amigo. Era meu amigo pra caramba... Senti muito, muito a morte dele. Foi uma convivência muito rica a minha com ele. Trocamos muita experiência, aprendemos muita coisa um com o outro, o Jorge era metódico; nos gostávamos pra caramba. Se realizava com automóvel. Aprendi muito da vida com ele. Um grande cara...

10. Sultani: E com Marinho e o Bird? 
Crispim: O Marinho era mais minucioso no acerto do carro... Ele era extremamente técnico. Ele ia exatamente no limite do carro.
O Bird é um dos caras que conheço que tem maior habilidade para dominar um carro, andar de lado. Eu não tive problemas com nenhum dos dois pilotos. São todos meus amigos até hoje. Eu viajava muito com o Bird.
Tem uma história com o Piero Taruffi. Ele veio ao Brasil e em Interlagos reuniu alguns pilotos brasileiros para avaliar a habilidade deles. Bird estava entre eles e já olhava torto para tudo que Taruffi expunha: que “porra” que esse italiano veio fazer aqui, dizia ele . O italiano pôs uns cones e explicou o que teria que fazer, “assim, assado”, etc. Bird fez tudo ao contrário e cravou o melhor tempo. O italiano ficou desesperado e gritava: no capito, no capito!!!

11. Sultani: O Greco chegou a trabalhar contigo antes de ir para a Willys? 
Crispim: Não. Greco trabalhava no Departamento de Compras da Vemag. Era conhecido como Luiz “Gazetinha”. Ele gostava muito de corrida e chegou a correr pela Vemag em corrida longa. Aí, a Willys começou a competir também e ele foi para a Willys, trabalhar no Departamento de corridas como auxiliar do Christian Heins. Convivi mais com ele como adversário na Willys. 
Após a morte do Heins, o Greco assumiu o departamento de competições e começou a trazer coisas de fora. Ele era grande estrategista, mas o conhecimento mecânico dele era pequeno. A Willys não tinha tecnologia nenhuma aqui no Brasil. Era tudo importado. Já a Vemag desenvolvia e resolvia. Aí, todos nós começamos a ter um pouco mais de informação, pois era muito difícil extrair informação naquela época. As informações não tinham a velocidade de hoje.

12. Sultani: E a experiência com o F-Júnior ? Por que não deu certo? 
CrispimSabíamos pouca coisa a respeito de veículos de Fórmula aqui no Brasil. Precisava ter uma organização melhor. Foi feito para a Mecânica Continental. O nosso tinha motor DKW, e enfrentava motor Corvette. Era uma coisa meio maluca. Eram poucos carros. Não tínhamos nada. Estávamos engatinhando em tudo... Nos vimos o começo da implantação da indústria automobilística no país...

13. Sultani: Um carro que o Francisco Lameirão sempre elogia é o Malzoni GT. Você teve participação grande nesse projeto, não? 
Crispim: Rino Malzoni tinha uma fazenda em Matão, onde ele fazia uns carrinhos esporte de dois lugares, usando o chassi DKW da Vemag. Uma vez fomos fazer uma corrida em Araraquara e depois da corrida ele falou: - vamos todos para minha fazenda que vou fazer um churrasco, em plena segunda-feira. A corrida foi domingo. Fomos todos: eu, Jorge, Milton Masteguim, Anísio Campos, Eduardo Scuracchio, Marinho, Luiz Roberto Alves da Costa (Robertão), Bird, Dal Pont, Moco, o Rato e seu irmão Wilson, enfim um monte de pilotos. Aí todos guiaram “o carrinho” do Rino que espalhava “aquela” poeira de terra vermelha na fazenda e a mulher dele gritava: - pelo amor de Deus. Parem com isso! Durante a comilança, Rino, Marinho, Robertão e Milton (que eram donos da Revenda DKW MM) falaram: -Vamos construir esse carrinho? E foi assim que nasceu o primeiro carro Esporte fora de série no Brasil, que se chamou GT Malzoni, depois Puma DKW e finalmente  Puma Volkswagen. Para realizar esta empreitada foi criado a “ LUMIMARI “ que é formada pelas iniciais dos nomes : Luiz Roberto, Milton Masteguim, Mario César de Camargo e Rino (Genaro) Malzoni; verdadeira loucura.
O.B.S.: Chico Lameirão rodou 3’48”6 com esse carro (GT Malzoni motor 1 litro) em Interlagos. Um recorde. Fangio, seis anos antes, virou em 3’50” com o Maserati 2,5 litros!

14. Sultani: Nos projetos havia preocupação com segurança?
Crispim: Muito menos que hoje. Nem se pensava nisso. Lógico que não queríamos matar ninguém...

15. Sultani: E o recorde com o Carcará? Você ficou em tempo integral nesse projeto?
Crispim: O Carcará foi feito em cima do chassi do Fórmula-Júnior. Foi construído pelo Toni Bianco e pelo Chico Landi com desenho de carroceria desenvolvido pelo Anísio Campos e contribuição do Jorge Lettry e Rino Malzoni lá na fazenda Timbó, do Rino, em Matão. Foi em 1966. O recorde do Carcará foi estabelecido com o motor engripado. Ele fez 213 km/h numa passagem e 214 na outra Se o motor estivesse melhor, chegaríamos a 220 km/h. Jorge estava com pressa pois estava demissionário da Vemag. Marinho não queria guiar o carro, em virtude pouca estabilidade direcional, problema que ele acreditava que deveria ser resolvida na Fábrica, aqui em São Paulo. O recorde foi no começo da Rio-Santos, perto da Barra da Tijuca com o piloto Norman Casari.
Na verdade, o Carcará era uma asa. O carro vinha e tendia a voar. Este fato causou uma discussão entre Jorge e Marinho que provocou um estremecimento na grande amizade que existia entre ambos.

16. Sultani: Você participou de provas fora do país ?
Crispim: Na equipe Hollywood, participamos em provas na Argentina em Buenos Aires, San Juan e Las Flores com LuizinhoPereira Bueno, Francisco Lameirão e Lian de Abreu Duarte e Anísio Campos.

17. Sultani: E você nunca pensou ou foi cogitado para sair da Vemag?
Crispim Não. Fiquei até acabar.

18. Sultani: Nessa época de Vemag, quais pilotos que você realmente admirou?
 Crispim: Putz. A lista é grande; comprida... Mas, dois encabeçam a lista: Marinho e Bird. O Chiquinho guiou pra caramba... Não vai dar pra dizer não. Ciro Caíres, Anísio Campos, Carol Figueiredo, Jaime Silva, Toco Martins.. Emerson e Wilson Fittipaldi, o Moco guiava muito. Não dá, não dá não... Se eu continuar vou fazer alguma injustiça. Uma vez, quando o Moco guiava aquele Brabham com motor Alfa Romeo, em uma prova de Fórmula 1 em Interlagos, ele me levou para os caras da Alfa e disse a eles: - Esse é o cara que mais entende de automóvel do Brasil...
Creio que isto demonstra o grau de amizade que a gente tinha naquela época com todos os Pilotos. E veja: o Moco nunca guiou em minha equipe...

19. Sultani: E quais corridas você considera inesquecíveis e por que? 
Crispim: 1000 Milhas de 1966. Eu estava sozinho comandando a EQUIPE e quase ganhamos. Foi uma choradeira só. Até o Emerson chorou. 
Até hoje ele fala: - Crispim, aquela Mil Milhas tá aqui óh (sick: para me demonstrar, Crispim passou o dedo na garganta).

20. Sultani: Em 1966 a Volkswagen comprou a Vemag. Para onde você e o Lettry foram?
Crispim: O Jorge foi para a Limimari. Eu, fiquei na Vemag até 1967. A Volkswagen não queria saber de corrida. Foi muito difícil a mudança de mecânica Vemag para a Volkswagen porque o Puma foi o primeiro carro fora-de-série fabricado no Brasil e a Volkswagen não queria nem ouvir falar em carro Esporte. Ela só cedeu porque o Robertão que além de Diretor da Puma era amigo “ PESSOAL” do General Costa e Silva, presidente da Republica. De plantão, ligou para Brasília e disse ao Presidente que aquele GIGANTE ALEMÃO estava querendo esmagar uma pequena Fábrica Brasileira. O General chamou o presidente da Volks à Brasília e ordenou que ele fornecesse tudo que a Puma necessitasse! Foram construído 23.000 carros até a paralisação da Fábrica, mesmo com a Volkswagen dando início na fabricação do SP2 com o intuito de prejudicar a Puma. Fiquei mais um ano e meio no Setor de Serviços e Escolas Mecânica. Depois fui para Campinas numa revendedora Volkswagen. Trabalhei na Souza Ramos, outra revenda Volkswagen depois para Comercial MM que era revenda Puma. Ainda na Vemag, vendemos os equipamentos e acabamos com o Departamento de Corrida.
Por ocasião da preparação para as Mil Milhas de 1966, alguns Pilotos que queriam correr e não tinham carro, consultaram a Vemag sobre a possibilidade de participarem com os carros da Fábrica. O Sr. Valdemar Geffru, nosso diretor de venda, me chamou e perguntou: 
- Você consegue fazer os carros com o que têm lá dentro? Não podemos requisitar nenhuma peça . Eu disse:
- Vou precisar só de combustível e pneus. Os Pilotos conseguem isso, não vejo problema.
Aí fizemos reuniões na casa do Emerson no Morumbi para atender aquela molecada toda de pilotos. As duplas seriam formadas e cada um teria que conseguir seus pneus e sua gasolina. A Puma estava na jogada também e demos um DKW Malzoni para o Emerson e Jan Balder. E eles quase ganharam essas Mil Milhas de 1966! Até seis voltas do final estavam em primeiro lugar, quando engripou um pistão. Ficaram em terceiro lugar atrás do Camillo ,vencedor da prova e do Marinho, segundo colocado. 

21. Sultani: Você nunca correu como piloto? Não quis? 
Crispim: Não sou maluco. Meu negócio é desenvolvimento. É o negócio que mais gosto na vida.

22. Sultani: Você testava os carros na pista? 
Crispim: Não. O Marinho me dava informação. Nelson Piquet também que nunca correu para mim, sempre que podia me passava alguma informação e ficamos tão amigos ao ponto de que, quando eu estava na Equipe Brasil com Chico Lameirão, ele me convidou para ir para a Europa se aventurar com ele. Mas preferi ficar.

23. Sultani: E os autódromos da época? 
Crispim: Autódromo só tínhamos Interlagos. Conheci também muitos circuitos de rua: Petrópolis, Araraquara, Barra da Tijuca, Ilha do Fundão, Piracicaba, Cavalhada. Vi todos autódromos nascer. Para mim, o traçado antigo de Interlagos era e sempre será o melhor autódromo do mundo. Hoje, Interlagos é um kartódromo.

24. Sultani: Acidentes fatais. Como era tratado nos bastidores?
 Crispim: Em 1962 uma coisa que me marcou muito foi a morte do Celso Lara Barberis, nos 500 Km de Interlagos. Antes da largada, passei por ele e tocando no seu ombro falei : Boa Sorte... O acidente do Cacaio em Petrópolis... Quando morreu o Christian Heins o Bird Clemente disse:
-  Quem quer morrer na cama, não deve correr de automóvel. 
E diz sempre: - Se você cortar o chifre do touro, tourada não tem mais graça.
Ou seja, o automobilismo é um esporte de risco, se o autódromo for muito seguro não tem mais graça.

25. Sultani: Fale um pouco do seu trabalho e relacionamento com Luiz Pereira Bueno ? E com Chico Lameirão? 
Crispim: Com Luizinho e Anísio Campos montamos a primeira equipe profissional do Brasil, a equipe Hollywood. Tendo o Chiquinho, Lian, Alex Dias Ribeiro Titê Catapani como pilotos O Luizinho, principalmente, é um cavalheiro. Um dos caras mais educados que eu conheço. Até para guiar carro. Ele trata o carro como fosse uma mulher. Numa ocasião, falando sobre Jorge Lettry comentei com o Luiz: 
- Eu devo muito a Jorge Lettry. E ele, com muito respeito, disse:
-  Ele também devia muito a você... 
Chiquinho é meu irmão. Gosto muito dele. Eu e Chiquinho fizemos a equipe Brasil e depois a Motorádio e com o dono da Cometa , o Arthur Maciole, a Bino-Motorádio. Com Chico Lameirão fomos campeões na Super-Vê com a equipe Motorádio. Na Divisão 4 corremos com o Avallone motor Chrysler. Foi muito bom. O carro era grande demais...
Foi uma época boa. Vou contar uma história: Chico Lameirão não chegou a F1, pois não me ouviu. Quando eu estava na MM ele quis ir para a Europa e eu falei para ele esperar mais um ano:
- Vamos no ano que vem, pois nos prepararemos melhor, arrumamos um patrocinador legal, vamos analisar o melhor carro, vamos esquematizar, ver custo do campeonato.
Mas ele queria ir naquele momento. 
- Assim não vou, falei para ele. O Roberto Nabuco (Fininho) foi para a Europa com ele e lá Chico ficou sozinho. Esse é o grande problema: ficar só lá, não ter um amigo para “trocar idéia”, incentivar, dar força.
Por exemplo, um dos responsáveis pelo sucesso da carreira do Emerson chama-se Chico Rosa que foi com ele para a Europa.
Tenho certeza que, se ele – Lameirão- esperasse e fossemos juntos, ele chegaria na F1, pois ele guiava para isso, guiava mesmo, guiava muito.
Numa ocasião, na Super-Vê, eu estava perdido com o carro dele. Não conseguia melhorar. Aí, a contragosto dele comentei, vou limpar o carro e começar desde o início. Comecei a tirar as peças e ele: 
- Você vai tirar isso? Tirava mais uma e ele : - Isso também? 
Depois de todo trabalho feito ele saiu com o carro e viramos o 2ºtempo na classificação. Ele parou no Box e falei: 
- Fizemos o 2ºtempo. E ele falou: 
- Porra, e eu não pisei tudo que podia...
Ele era assim, se não acreditava ele não desempenhava adequadamente.

26. Sultani: E depois disso, que rumo você tomou?
 Crispim: Montei uma oficina de rua. Agora estou na Lobini num projeto novo na parte de produção de um novo carro.

27. Sultani: Alguma decepção?
 Crispim: Não. Porque quando você está muito lá em cima, não pode mais descer. Eu não tive o prazer de vencer aquela Famosa Mil Milhas de 66. Mesmo assim sempre fui feliz, pois faço o que gosto.

28. Sultani: E a maior emoção?
 Crispim: As 1000 Milhas de 1966.

29. Sultani: Qual o melhor piloto brasileiro que você já viu correr?
Crispim: Nelson Piquet. O pai dele era médico e uma vez eu fui para Brasília e passei mal lá no Autódromo. O pai dele me medicou, eu estava hospedado na casa do Nelson. Ele nunca foi ver o filho correr. No dia seguinte, Nelson se surpreendeu pois o pai dele estava lá no autódromo. Ele foi ver como é que eu estava e não o filho correr. Quinze dias depois ele morreu...

30. Sultani: Crispim, sua experiência no automobilismo é imensurável. Atualmente, o que você acha que precisa melhorar no automobilismo nacional ?
Crispim: Antigamente, o mecânico brasileiro era endeusado, o piloto era endeusado. Quando chegou a F1 tudo isso acabou.
O Argentino valoriza o automobilismo dele. Nós achamos que tudo dos outros é melhor. Nós, Brasileiros, temos o complexo de vira- lata.
Vou te dizer uma coisa: a Alemanha nunca tirou a potência do motores DKW que nós tiramos. O brasileiro precisa apreender a se valorizar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Mapa (volta-volta) F1_2020 Etapa 06 - GP Espanha (Catalunha)

O que mais marcou este GP?
Kimi Räikkönen vai para o Q2. Mercedes pela 4ª vez no ano faz a dobradinha na 1ª fila. Hamilton é absoluto e conquista facilmente sua 4ª vitória no ano. Bottas novamente “bobeia” e perde o 2º posto para o ótimo Verstappen. Já o alemão Vettel, com estratégia de um só pit, conquista um modesto 7º posto. Albon é o único a usar pneus Hard e termina atrás de Vettel. Domínio dos três primeiros colocados é evidenciado no final da corrida, pois terminam uma volta na frente de Stroll, 4º colocado. Pérez volta em ótimo ritmo, é punido e por isso finda atrás de Stroll. No Mundial, Hamilton dispara na ponta, Bottas mais uma vez perde terreno para Verstappen e o abandono de Leclerc deixa a disputa pelo 4º posto emocionante com os pilotos da Force India, Norris e Albon muito pertos do monegasco Leclerc, assim como o 3º posto dos Construtores entre Racing Point, McLaren e Ferrari.



Torneio Paulista Fórmula-Vê


 


No Brasil, ela foi sucesso no fim dos anos 60. Pilotos da época como Wilson e Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace, Ricardo Achcar, Marivaldo Fernandes e outras “feras” abraçaram essa categoria competitiva e financeiramente acessível. Eram monopostos com motores VW 1.200cc, chamados de Fórmula-Vê.

O sucesso foi notório, tanto que no dia 10 de setembro de 1967, diante de um grande público, a décima edição dos 500 KM de Interlagos foi disputado somente com carros de Fórmula-Vê, Foram 23 inscritos com 16 largando e predominando duas marcas de chassi presentes: Aranae do Spadaccini e o Fitti-Vê, construído pelos irmãos Fittipaldi.

Seguindo a tradição das edições anteriores, a prova foi disputada no anel externo de 3.250 metros de extensão. Os carros andaram muito juntos e vários acidentes ocorreram, sem gravidades, eliminando pilotos como Joaquim “Cacaio” Telles de Mattos/Jaime Silva/Mário Cesar de Camargo/Lucio Naja, Celidônio, José Fernando “Toco” Lopes Martins/Ailton Varanda entre outros, enquanto a dupla Achcar/de Lamare abandonou por problemas mecânicos. Daí, a dupla Antônio Carlos “Totó” Porto/Ruby Loureiro ganhou com facilidade, depois de 154 voltas em 3h52’07, a uma média de 129,328 km/h. Foi a primeira vitória do Aranae. A seguir chegaram os Fitti-Vê´s de José Carlos Pace/Carol Figueiredo e em 3ºlugar ficou Jan Balder/Maneco Combacau.

Em 1968, Interlagos foi fechado para reforma e a Volkswagen ainda não apoiava a Fórmula-Vê. Os campeonatos brasileiro e carioca desses monopostos proporcionaram acirradas disputas até fins de 1969, época que seus principais pilotos partiram para a Europa, em busca do sucesso. Com isso a categoria praticamente morreu; daí, os carros fórmula-Vê passaram a ser bastante freqüentes nas escolas de pilotagem.

Somente em 1974 a Volkswagen entrou forte no automobilismo esportivo com o lançamento da categoria Super-Vê com seus motores 1600 cc. Foi um sucesso acima do esperado e para 1975, além da Super-Vê a montadora do Brasil idealizou o reaparecimento da Fórmula-Vê. Muitos dos chassis dos anos 60 foram reaproveitados para acoplar, agora, os novos motores Volkswagen de 1300 cc.

Foi criado o Torneio Paulista de Fórmula-Vê, buscando pilotos novos que almejavam correr na Super-Vê. A premiação monetária para largar, pole-position, volta mais rápida, prêmio para os seis primeiros colocados, e também para o campeão, o vice-campeão e para o terceiro colocado, foi a grande chamariz para os pilotos disputarem esse primeiro Torneio Paulista de Fórmula-Vê. 
Foram quatro provas, todas disputadas em seis voltas daquele longínquo traçado antigo de Interlagos.

A primeira prova foi no dia 13 de julho – junto com a Super-Vê- e o vencedor foi o piloto Cleber Mansur com o seu Heve nº7.  

Mário Ferraris Neto, pilotando o Pati nº10, venceu as outras três provas e foi o campeão desse Torneio Paulista.

A partir de 1976 foi criado o Campeonato Brasileiro de Fórmula-Vê. O campeão da F-Vê em 1976 foi Plácido Iglesias. Daí, a categoria foi renomeada para F-VW 1300. Seus campeões foram: Élcio Pellegrini (1977 e 1978), Luiz Renato Schaffer (1979) e Jefferson Elias (1980).

Em 1981 a Volkswagen, justificando preocupação com o lançamento do carro Gol, anunciou a demissão de 3.000 funcionários e também a retirada do seu patrocínio às competições automobilísticas. Mais do que depressa, os pilotos idealizaram, no lugar da Fórmula Super-Vê, a Fórmula 2 Brasil.

Mas qual seria o destino das centenas de carros da F-VW 1300 ?
Caíram como uma luva para a montadora Fiat que os adaptou tecnicamente à Fórmula Fiat proporcionando aos pilotos, grande facilidade de financiamento dos motores Fiat.

Aí morreu a F-VW 1300...




Classificação Final do I Torneio Paulista de Fórmula Vê:

1º Mário Ferraris Neto, 33 pontos.
2º Cleber Mansur, 18 pontos.
3º Victor Dokukowski, 13 pontos.
4º José Luís Bastos, 8 pontos.
5º Marcos Lara Gouvea, 6 pontos.
6º Fernando Jorge, 5 pontos.
7º Roberto Cox, 4 pontos
8º Paulo Babka, 4 pontos
9º João Batista Aguiar, 3 pontos
10º Júlio A.Barbero, 2 pontos
11º Antônio Cláudio Barbosa, 2 pontos
12º João de Castro Palhares 1 ponto
13º Júlio C.Pinheiro, 1 ponto.









Sergio Sultani


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Mapa (volta-volta) F1_2020 Etapa 05 - GP Anniversary (Silverstone)

O que mais marcou este GP?
Racing Point perde 15 pontos (protesto da Renault) devido aos dutos de freios “copiados” da Mercedes. O destaque do qualifying é Hülkenberg com o 3º tempo atrás do pole-position Bottas e Hamilton. Consumo excessivo de pneus é preocupação de todos. Verstappen, como a minoria, larga com pneus Hard. Na largada, Bottas mantém a ponta e logo depois Vettel roda sozinho. As Mercedes logo vão para o pit – pneus Hard- e Verstappen assume a ponta. Mercedes não têm bom rendimento com esses pneus. Na metade da corrida, Verstappen troca para pneus Medium. Ele ultrapassa Bottas que, momentaneamente, assumira o 1º posto. Pouco depois, Bottas vai para o pit, coloca pneus Hard e Verstappen faz o mesmo nessa volta. Hamilton é o novo líder, mas na maioria das voltas é o mais lento entre os ponteiros. Brigas intermediárias constantes, sendo Albon o destaque com belas ultrapassagens. A onze voltas do fim, Hamilton põe pneus Hard, cai para o 4º posto e Verstappen reassume a ponta. Com vibrações no carro, Hülkenberg põe pneus Soft (o único na corrida toda). Hamilton faz a volta mais rápida da prova e a duas voltas do fim ultrapassa Bottas para findar em 2º posto. Com a vitória, Verstappen assume o 2º posto do Mundial, deixando o desconsolado Bottas em 3º.

1936: O inesquecível I GRANDE PRÊMIO CIDADE SÃO PAULO


O MOMENTO:
O automobilismo brasileiro da época era conhecido mundialmente pelas corridas anuais da Gávea, no circuito carinhosamente chamado de “Trampolim do Diabo”; prova oficialmente denominada GP do Rio de Janeiro.

Foram trinta e nove os inscritos para o IV GP da Cidade do Rio de Janeiro, no dia 07/06/1936.

Dentre os dez estrangeiros veio (a conselho do piloto Hans Stuck) a sensação francesa Marriete Hélène Delange – Hellé-Nice – acrobata e dançarina de cassino, de 35 anos de idade, que se tornou hábil piloto de carros de corrida.

Além dela, outros pilotos de renome internacional como os italianos Carlo Pintacuda e Attillo Marinoni da Escuderia Ferrari com os potentes Alfa Romeo e os argentinos Vittorio Coppoli e Vittorio Rosa.

Dentre os brasileiros, Manuel de Teffé – vencedor da corrida inaugural - em 1933 – era o mais bem cotado com seu Alfa Romeo. Os paulistas, “rei do volante” dos anos 1920, Nascimento Júnior (Ford) e Chico Landi (Fiat) tinham carros menos potentes, mas poderiam surpreender. No entanto, quem surpreendeu foi o argentino Coppoli que venceu depois que o líder Pintacuda abandonou por quebra do diferencial e Teffé forçado a parar para trocar uma roda. Nascimento Júnior, Chico Landi, Marinoni e Hellé-Nice também abandonaram a prova.


OS PREPARATIVOS:
Em quarenta e cinco dias, as autoridades paulistas em conjunto com a ACB (Automóvel Clube Brasileiro) idealizam e concretizam o grande evento internacional Grande Prêmio São Paulo, programado para o dia 12/07/1936.

A corrida é idealizada pelas nobres ruas do bairro paulistano Jardim América com o seguinte traçado: largada na Av.Brasil; retorno na Rua Atlântica para atingir a outra mão da Av.Brasil; curva a 90º para a Rua Canadá, percorrendo até contornar para a Rua Chile (atual Av. Nove de Julho); atravessa a Av.Brasil; indo até entrar na Rua Estados Unidos contornando o outro trecho da Rua Canadá indo até a curva à direita retornando novamente à Av.Brasil.

 O circuito tem de um lado a Tribuna da Imprensa e de outro os cronometristas do ACB. Nas guias da calçada, fardos de alfafa para proteger os assistentes.
Cento e quarenta metros de arquibancada com 1760 lugares numerados são montadas na Av.Brasil. Vinte boxes são improvisados do lado direito da Av.Brasil, em frente à Tribuna de Honra. As ruas adjacentes ao circuito são fechadas com arame farpado e cavaletes.

Suas sessenta voltas de 4.246 metros cada cria imensa expectativa para a população que finalmente terá uma corrida tão importante quanto a Gávea e, também, às provas disputadas na Argentina.

O serviço de trânsito, chefiado pelo delegado Costa Neto, é realizado sem nenhum tumulto, mesmo após o fatídico acidente no final da prova. Durante toda a semana, a organização alerta o público para ter consciência e disciplina no evento; afins de evitar acidentes.... 

Ficou estabelecido que todos os pilotos que ainda estejam na pista ao final da prova, devem completar as sessenta voltas regulamentares. Todos os pilotos acham o local da disputa magnífico e o trabalho de organização – com a experiência das autoridades obtida nas corridas anteriores da Gávea - impecável.

Os ingressos são vendidos antecipadamente nas lojas comerciais e no sábado no Club Athletico Paulistano.

A Associação dos Corredores do Rio de Janeiro, no dia 7, chefiada por Benecdito Lopes, pede para que Teffé não corra pois, a comissão nega inscrição de pilotos cariocas, enquanto auxiliava em dinheiro os corredores estrangeiros. Teffé responde que estava lá como esportista e não como político e que já na Gávea se comprometera com os amigos Pintacuda e Marinoni, a correr na prova. Tivera ele concordado, uma caravana de dez carros iria buscá-lo em São Paulo.


O TREINO DE RECONHECIMENTO:
A dois dias do certame, é realizado um treino de reconhecimento do traçado. O piloto brasileiro Armando Sartorelli bate na curva que liga a Rua Chile a Canadá ao derrapar e destruir seu carro numa árvore. Por muita sorte ele escapa ileso, mas seu carro...

Nesse treino, na curva entre Av.Brasil e Rua Canadá, a piloto Hellé-Nice, a bordo do seu próprio Alfa Romeo Monza azul, fica entre Oliveira Jr. E MacCArthy:para vibração do público presente, ela sai na frente dos dois, mostrando toda sua perícia pelas estreitas ruas de São Paulo. 

Dezenas de pessoas se posicionam nas árvores da Rua Canadá e com muito trabalho os guardas os tiram de lá. Além disso, a Guarda Civil têm muito trabalho, pois muitos torcedores atravessam a pista expondo-se perigosamente nas calçadas das entradas de curvas do traçado.

Os mais rápidos são os potentes Alfa Romeo 2.9l. Sport com 250 HP de Pintacuda e Marinoni, que atingem nas retas da Av.Brasil 180 km/h - sem forçar-, pois a previsão era de ali, passar dos 200 km/h! O argentino Vittorio Rosa corre com o seu novo Hispano-Suiza adaptado, enquanto o brasileiro Chico Landi com o fraco Fiat, comprado do argentino. Ambas duplas carro-piloto, correram na Gávea.

Devido ao grande público presente nas calçadas do traçado, Teffé treina pouco, pois teme um atropelamento. Seu Alfa Romeo é do mesmo modelo de Hellé-Nice: 100 HP a menos que os favoritos Alfa Sport de Pintacuda e Marinoni e Nascimento Jr. que vencera o GP de Poços de Caldas.Ele foi muito aplaudido nessas voltas de reconhecimento com seu Ford V8.

O vencedor da Gávea, o argentino Coppoli não foi bem, pois o motor de seu Bugatti estava falhando e daí também pilotou o Fiat (Escuderia Excelcior) de Chico Landi.

Em resumo, Pintacuda e Marinoni giraram em 2’9” e 2’10” respectivamente. Teffé cravou 2’30”, Hellé-Nice 2’45”, Coppoli 3’04” e Nascimento 3’05”. O prefeito de São Paulo, Fabio da Silva Prado, deu duas voltas com Pintacuda nesse treino.


A FORMAÇÃO DO GRID:
Dos trinta e oito pilotos inscritos, dezenove largaram sendo que treze destes participaram do GP Rio de Janeiro.


Entre os que não largaram estava Quirino Landi, irmão do “Seu Chico”... A escolha de quem iria correr foi por uma computação geral de pontos relacionados ao desempenho de cada concorrente nos últimos anos. A ordem de largada foi por sorteio.

Devido ao grande favoritismo da Escuderia Ferrari, seu representante, Sr.Gilberu, propôs que seus carros, os Alfa Romeo de Pintacuda e Marinoni, largassem na última fila do grid. Não houve restrições e o fato foi concretizado.... 

Nenhum volante correu com o nº32 em homenagem ao piloto brasileiro Irineu Corrêa, falecido no GP do Rio de Janeiro em 1935. Por isso, Nascimento correu com o nº42 e não com o 32; de Irineu Corrêa. 

Sorteados pela comissão, o grid de largada foi idealizado na forrmação 3-2-3, em frente à Praça América – junto a Tribuna Oficial - e teve a seguinte formação:

* Fila 01
nº2_Augusto MacCarthy (ARG) – Chrysler;nº4 Lourenço Ferrão (BR) – Hispano Suiza e nº6 Vittorio Coppoli (ARG) – Bugatti.

* Fila02
nº8 Manoel de Teffé (BR) – Alfa Romeo e nº10 Armando Sartorelli (BR) – Alfa Romeo.

* Fila03
nº12 Irahy Correia (BR) – Bugatti; nº16 – Seraphim de Almeida (BR) – Dulsemberg e nº18 Luiz Mastrogiacomo (BR) – Bugatti.

* Fila 04
nº20 Chico Landi (BR) – Fiat e nº22 Eduardo Oliveira Jr. (BR) – Ford.

* Fila 05
nº24 – Antonio Lage (BR) Bugatti; nº26 - Vittorio Rosa (ARG) - Hispano-Suiza e nº28 – Virgílio Lopes (BR) – Ford V8.

* Fila06
nº30 - Luiz Tavares Moraes (BR) – Ford V8 e nº42 Arthur Nascimento Jr. (BR) - Ford.

* Fila07
nº34 Hellé-Nice (FRA) - Alfa Romeo; nº36 - Domingos Lopes (BR) – Hudson Bugatti e nº38 – Carlo Pintacuda (ITA) - Alfa Romeo.

* Fila08
nº40 – Attillo Marinoni (ITA) - Alfa Romeo.

Observações do Grid de Largada:
* O piloto João Alfredo Braga não pode largar por falta de segurança no seu Studebaker nº14.

* Luiz Mastrogiacomo alinhou no lugar do piloto Valentim Passadore.

* Virgílio Lopes alinhou no lugar de Santo Soeiro.

* O mecânico do acidentado Armando Sartorelli não teve tempo suficiente para arrumar seu carro e ele correu com o Alfa Romeo do piloto Gattai que não foi contemplado para largar.


A LARGADA:
À meia–noite do sábado, milhares de penetras ocupavam os melhores lugares da arquibancada. A polícia teve muito empenho e trabalho para tirá-los de lá.

Pela manhã, cordas separavam o imenso público da pista, além das arquibancadas improvisadas estarem lotadas.

Programado para as 09h00min da manhã o evento teve a largada atrasada devido à expectativa da chegada do prefeito, Fabio da Silva Prado.

Isso agitou o público que impaciente gritava “Está na hora”. “Está na hora...”.

Com os carros alinhados e a chegada atrasada do prefeito, a programada volta dos batedores com moto foi efetuada.

Ainda seguindo a programação, o Sr.Fabio percorre o circuito saudando o público. Já era 09h35min, quando ele dá um clarim concretizando a tão esperada largada, na Av.Brasil, em frente ao Automóvel Clube Paulista.


O ESPETÁCULO INICIAL DOS FAVORITOS:
A Rádio Cruzeiro do Sul – Estação Oficial do ACB - comanda junto com mais 34 emissoras do Brasil, faz a transmissão da corrida para todo o Brasil.

Saindo da nona posição, Chico Landi passa à frente na primeira volta. Da mesma maneira espetacular, o favorito Pintacuda passa em oitavo e a badalada Hellé-Nice em terceiro enquanto Marinoni, mais discreto, em 15ºlugar.

Marinoni roda, cai para último, mas na quarta volta já é o 2º com Pintacuda líder desde a volta anterior. A pouca potência do Fiat de Chico Landi o renegou ao 5ºposto. O italiano Marinoni roda de novo entre a Rua Canadá e Av. Brasil, danifica seu carro e perde posições ao ter que descer do carro para fazê-lo prosseguir na prova.Para surpresa de todos, Pintacuda “dá uma mão” ao Marinoni, (o empurrando com seu próprio carro?) e ele reparte no 8ºposto! Com isso, a sensação Hellé-Nice assume o 2ºposto seguida do brasileiro Manuel de Teffé.


OS INCIDENTES:
A curva da Rua Canadá era a mais perigosa e além de Marinoni, lá derraparam: Teffé, Nascimento, Ferrão, Tavares e Sartorelli. A poucos metros da tribuna oficial, Pintacuda passa por Eduardo Oliveira Júnior. Um espectador tentou atravessar a pista, mas foi seguro por um policial, evitando assim um acidente pavoroso.


A ESTABILIZAÇÃO:
O líder Pintacuda começa a se afastar dos outros concorrentes, enquanto a segunda colocada, Hellé-Nice passa a ser pressionada por Teffé. Sete voltas depois, o argentino Coppoli, vencedor da Gávea, abandona a prova e lá na frente, na volta seguinte, Attillo Marinoni recupera o 2ºposto, enquanto Pintacuda estabelece uma média de corrida em 107 km/h com uma vantagem de quase duas voltas sobre seu companheiro!


OS PITS:
19ªVolta: O líder Pintacuda foi o primeiro a reabastecer. Ele volta ainda na primeira colocação. Na 28ª, o 2ºcolocado Marinoni também reabastece, voltando na 4ªcolocação.


O CIGARRO:
Enquanto Landi perdia posições devido a problemas no seu Fiat, o líder Pintacuda já tinha duas voltas de vantagem para Hellé-Nice, a 2ªcolocada. E na 34ªvolta, Carlo Pintacuda surpreende ao entrar no pit. Muitos acharam que era o fim de corrida para ele – lembrando seu abandono na Gávea – mas, para espanto destes, ele simplesmente pede um cigarro! “Nada como fumar e apreciar um ótimo cigarro quando se está liderando facilmente a prova mais nobre pelas ruas de São Paulo, não é mesmo? ”


O RÍTMO FORTE:
Marinoni está decidido a roubar o 3ºposto de Teffé, que assim pressionado, estabelece a sua volta em 2’33”. Em contrapartida, o italiano estabelece 2’18” e consegue ultrapassar o brasileiro. Num ritmo alucinante, Marinoni estabelece 2’17” na 39ªvolta e acelera em busca da francesa. A torcida se empolga com a resistência de Hellé-Nice, que faz de tudo para impedir a perda do segundo lugar. Alcançado novamente o 2ºlugar, com “apenas” duas voltas atrás do líder e parceiro Carlo Pintacuda, Marinoni não diminui sua tocada e, na 40ªvolta, crava a melhor volta da prova com 2’15”.


A GARRA FEMININA:
Hellé-Nice pára na 50ªvolta para pôr gasolina e água, o que a faz perder o 3ºposto para Teffé na 52ªvolta.A partir daí a francesa tem 30” de desvantagem para o brasileiro e novamente empolga a multidão com seu desempenho. Faltavam somente quatro voltas para o final e Hellé-Nice tirava 5” por volta sobre Teffé! 


ÚLTIMA VOLTA e O DESASTRE:
Depois da reta oposta Hellé-Nice tinha 5” de desvantagem para Teffé e continua a se aproximar do brasileiro em busca da 3ªposição. Ambos tinham duas voltas de desvantagem para o líder e uma para o 2ºcolocado.Na curva da Av.Brasil esquina da Rua Atlântica Teffé abre demais, perde tempo e Hellé-Nice emparelha com ele. Ao entrar na reta final da Av.Brasil, Teffé ganha distância. Atravessaram a Rua Colômbia.

Às 11h59min, Pintacuda atingiu a linha de chegada para vencer a prova a uma média de 104,45 km/h.. Aí a população se agita para melhor enxergar a disputa entre Teffé e Hellé-Nice, pelo 3ºlugar. 

Faltam poucos metros para a chegada e Teffé vai para o lado direito da pista.  Na reta de chegada, Hellé-Nice, perturbada por um dos assistentes, perde o controle do seu bólido vai para o público à esquerda...

Dizem que um espectador se debruçou demais e jogou um dos fardos para a pista, o que provocou a perde de direção da Hellé-Nice. O carro dá duas voltas no ar e cai adiante na pista. Hellé-Nice é atirada do lado oposto, dez metros adiante, caindo em cima de um assistente que se encontra próximo à equipe de cronometragem. Já o mecânico da francesa, Sr. Arnoldo Binelli, afirmou que Teffé fechou Hellé-Nice no lado esquerdo, provocando o acidente.

Uma outra testemunha ouvida no processo aberto, disse que a francesa atropelou um guarda que estava solicitando à população para não avançar para a pista. A própria Hellé-Nice, ao depor, não se lembrava daqueles dramáticos instantes...


AS CONSEQÜÊNCIAS NO DIA:
Após o desastre, três aviões apareceram para transmitir informações a fins de orientar a população. O vencedor é Pintacuda com a multidão nas calçadas acompanhando sua passagem.

A última arquibancada da Tribuna de Imprensa havia se partido, devido ao peso. Felizmente ninguém se machucou. O público invadiu a pista e os guardas foram bastante enérgicos para facilitar o socorro e evitar o pisoteamento às vítimas e também proporcionar a chegada dos outros seis carros que ainda estavam na corrida.

Notícias são transmitidas pelo rádio ininterruptamente e vítimas prontamente socorridas.A Inspetoria de Moléstias infecciosas enviou quatro ambulâncias para auxiliar no socorro das vítimas.

O saldo do acidente foi cinco mortes (dois soldados da Força Pública, dois militares do exército e um civil), sendo que dois guardas civis atingidos pelo carro de Hellé-Nice e um militar absorveu o impacto do corpo da francesa.


O DIA SEGUINTE:
A apuração dos envolvidos teve o seguinte saldo final:
Cinco mortes, doze pessoas feridas graves incluindo soldados que estavam lá, para manter a ordem, dezoito feridos levemente e a estrela francesa Hellé-Nice que após o impacto teve comoção cerebral com 70 pulsações por minuto, escoriações no rosto, contusão no cotovelo e na região escapular. Nesse estado ela foi internada no Sanatório Santa Catharina. Ela se recuperou bem e recebeu alta dias depois.


A SOLIDARIEDADE BRASILEIRA:
O acidente repercutiu na assembleia Legislativa. Em nome do Partido Constitucionalista, o Sr. Dante Delmanto, e em nome do Partido Republicano Paulista, o Sr. Alberto Americano, solicitaram um voto de pesar em nome das vítimas, da recuperação de Hellé-Nice e dos feridos. O presidente, Sr. Laerte de Assumpção, acata e aprova o requerimento de pesar. 

A Rádio Sociedade Record organizou e captou donativos à Hellé-Nice, para recuperar seu carro. A Companhia de Revistas e Operetas Portuguesas realizou um espetáculo no Cassino Antarctica, cuja renda foi doada para os familiares das vítimas. A Socie dade Rádio Mineira de Minas Gerais coletou fundos para as vítimas do desastre.

A população brasileira acatando as várias campanhas de Rádio Record, se mobilizou em doações a favor das vítimas do desastre. Surpreendeu o número de visitantes e telefonemas para o hospital, a fins de saber sobre o estado de saúde da carismática Hellé-Nice.



O RESULTADO DA CORRIDA:

Devido à assistência que Pintacuda deu ao italiano Attillo Marinoni, durante a prova ele deveria ser desclassificado, conforme regulamento. Mas, a tragédia da última volta, a sua performance durante a prova e principalmente dele ser um dos principais convidados, a Comissão Esportiva do GP (Capitão Amadeu Saraiva, presidente: Dr. Vicente de Paulo Assumpção, secretário:Dr.Antonio Barbosa Bueno, conde Adriano Crespi, Silvio de Lara Campos e Pedro Valdassari), achou por bem somente multá-lo em 20 contos do seu prêmio, em favor das vítimas.


A acusação oficial do mecânico da Hellé-Nice contra Teffé aos comissários da prova não foi acatada e Manuel de Teffé não foi considerado culpado do acidente. Devido ao acidente, a o fato de que os alguns concorrentes não puderam cruzar a linha de chegada e também à invasão de pista, somente seis carros foram oficialmente classificados:

1º. 38 - Carlo Pintacuda              (ITA)         Alfa Romeo        60 voltas    2h26’21.1    104.45 km/h

2º. 40 - Attillo Marinoni                (ITA)         Alfa Romeo        59 voltas    2h30’32.1     99.854

3º.   8 - Manuel de Teffé             (BR)          Alfa Romeo        58 voltas    2h31’59.1     97.225

4º. 34 - Hellé-Nice                      (FRA)       Alfa Romeo         58 voltas    2h32’02.1     97.193

5º. 26 - Vittorio Rosa                  (ARG)      Hispano-Suiza     55 voltas

6º. 42 - Arthur Nascimento Jr.    (BR)         Ford                     54 voltas.

Melhor volta: Attilo Marinoni em 2’15” na 40ªvolta (113,330 km/h). 


 A PREMIAÇÃO:
1º Pintacuda:
           50 contos

 Taça Fabio Prado

Taça ACB

Taça de ou ro Cerveja Caracu

Medalha Fraternidade Ítalo Br asileiro

Medalha de ouro oferecida pelo sindi cato dos garagistas

Medalha de ouro pela Antarctica paulista

Cronômetro Universal Geneve

Casa Hanau

Prêmios Fan fulha: uma cigarrilha de ouro e uma taça de prata.

2º Marinoni:
          25 contos

Melhor volta: 5 contos

Medalha Fraternidade Ítalo Brasileiro.

3º Teffé:
          15 contos

Premio Diário da Noite 10 contos

Premio Sudam: Vencedor nacional

Melhor tempo de brasileiro: 1ª a 10 ªvolta= 2 contos

Idem 11 a 20, 21 a 30, 31 a 40, 41 a 50.

Medalha de ouro: Electrochimica Saturnia

Medalha de ouro Antarctica Paulista

Taça ACB

Relógio de ouro oferecido pela Gambarotta

Radio Console Cruzeiro dado por Byington & CIA: melhor brasileiro na 20ªvolta.

4º Hellé-Nice:
        5 contos.

5º Vittorio Rosa:
        5 contos.

6º Arthur Nascimento Jr.:
       Premio Sudam.


INTERLAGOS:
A declaração de Manuel de Teffé no dia seguinte: “Uma coisa me comoveu: o público paulista torceu para Manuel de Teffé com um entusiasmo que eu jamais vi no Rio” e o grave acidente na última volta impulsionaram a construção do autódromo de Interlagos, inaugurado em 1940.

Foi isso...


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Mapa (volta-volta) F1_2020 Etapa 04 - GP Inglaterra (Silverstone)

 

O que mais marcou este GP?
Vírus COVID-19 (F1 ainda sem público) ausenta Sergio Pérez. O mexicano é substituído por Nico Hülkenberg na Racing Point.
Hülkenberg, Albon e Russel não passam do Q2; “Flechas de Prata” (agora “Pérola Negra”) são absolutas com mais de 1” de diferença para o mais próximo concorrente.
Vettel é o destaque negativo no qualifying e na corrida.
Mercedes confirma dobradinha com Hamilton na pole-position; Hülkenberg não alinha, e nem larga, por problemas do seu Racing Point.
Logo, Magnussen colide com Albon abandona e safety car entra.Após pista limpa, Mercedes continua na ponta, quase 1” mais rápida que seus concorrentes.
Pouco depois, Kvyat – que ganha 5 posições na volta 1: melhor largada do grid -, perde a traseira e bate: novo safety car.
Com disputas acirradas nas colocações intermediárias, Grosjean e Sainz recebem bandeira preta-branca (advertência) por manobras contra Sainz e Ocon, respectivamente.
Desgaste excessivo dos pneus Hard estoura o pneu do 2º colocado Bottas, que se arrasta até o pit à 2 voltas do final.
Aí, Verstappen, 3º posto, troca para pneus Soft (conquista o ponto-extra na última volta).
Em sequência, Sainz, 5º posto, também tem seu pneu estourado e troca para Medium na penúltima volta! Na última volta, o líder Hamilton sofre o mesmo pane e se arrasta até receber a bandeirada como vencedor a pouco mais de 5” sobre Verstappen.
Se Verstappen não vai para o pit na antepenúltima volta...

sábado, 1 de agosto de 2020

Mapa (volta-volta) F1_2020 Etapa 03 - GP Hungria (Hungaroring)

O que mais marcou este GP?
T2 com chuva; Albon não passa do Q3, onde os 2 Williams passam. Mercedes é muito superior aos concorrentes com Hamilton cravando a pole, melhor volta e vitória.
Os dois Racing Point na 2ª fila; Verstappen bate na volta de alinhamento, danifica o carro mas, consegue largar no seu 7º posto depois de ótimo reparo dos mecânicos.
Bottas larga mal e o tempo nebuloso foi o destaque da prova, sem chuva. Todos largam com pneus intermediários, exceto a Haas que larga do pit para mudar para pneus medium.
Assim, até a 5ª volta todos os outros pilotos fazem seus pits para trocar os pneus para pista seca. Isso provoca a incrível marca de 163 ultrapassagens até a 5ª volta e o avanço da Haas para 3º e 4º posto, com Hamilton na ponta, Verstappen em 2º e Bottas em corrida de recuperação.
Na metade da prova ele toma o 3º posto de Stroll e no final ameaça o 2º posto de Verstappen, mas não consegue ultrapassá-lo.
Hamilton troca para pneus soft no final, crava a melhor volta da prova e conquista sua 86ª vitória assumindo a liderança do Mundial pela 108ª vez na carreira.
No final Haas é punida por ter tido “ajuda” da equipe durante o alinhamento, para largar do pit.
Destaque negativo, a Williams que mais uma vez no ano, faz um bom qualifying mas uma corrida ruim.

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O pontilhado uniforme indica abandono e o disforme indica penalização na classificação final.